Texto central "biografar - Johanna Döbereiner". Textoem rodapé "bactérias que valem bilhões". Imagem de fundo defocada de uma mulher idosa sorrindo, aparentemente.

Panoramas #072 – biografar – Johanna Döbereiner

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Panoramas #072 - biografar - Johanna Döbereiner
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Hoje venha conhecer a história dessa pesquisadora que mudou o rumo da agricultura no país. Mais um episódio biográfico do Panoramas.

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Debret e o Brasil – Obra Completa

Gramíneas – Dragões de Garagem #226

Vídeo comentado no episódio

Transcrição do Episódio

Olá, bem vindos a mais um episódio do podcast Panoramas. Eu sou o Guilherme, também conhecido como Sechat. Bacharel, mestre e doutorando em física pelo Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas. No episódio de hoje vamos seguir com nossa série de biografias de cientistas e quero trazer alguém que já foi mencionada aqui no nosso podcast. Esta pessoa é responsável pelo Brasil hoje ser tanto uma potência na produção de soja como também na de Etanol da Cana de Açúcar! E por isso acho essa história incrível, pois mostra como uma pesquisa pode ter um impacto gigantesco na economia do país se bem utilizada e financiada.

Mas antes, claro, nossas redes sociais. Você pode me encontrar no instagram por @guilhermesechat e o meu site sechat.blog, o podcast você pode encontrar e citar no instagram e twitter como @panoramascast, e também pode encontrar por essa mesma arroba o nosso canal do Telegram, onde você também pode encontrar lá o grupo de ouvintes do Panoramas, onde você pode falar com todo mundo inclusive eu. 

Mais uma vez claro quero lembrar a vocês para apresentarem esse podcast para pelo menos duas pessoas para termos nosso crescimento geométrico garantido. Quero mais ouviiintes. E se você pode também quero lembrar que você pode colaborar comigo pelo meu Apoia-se, PicPay ou até mesmo pelo pix no email contato@sechat.blog, anota aí, contato@sechat.blog.

Agora, chega de enrolar e vamos ao tema de hoje. Vou começar introduzindo a ideia geral de por que eu acho esse episódio, essa pesquisa e essa cientista tão importante. Estamos falando de Johanna Döbereiner, a quem eu compartilho a data de nascimento, não que isso signifique qualquer coisa por que aqui não incentivamos a astrologia.

Eu acho ruim o fato de o Brasil hoje ser um país que acaba por não ter uma produção industrial e tecnológica de ponta bem desenvolvida. Temos alguns pontos onde lideramos ou somos bem respeitados mas acabamos por ainda sermos um país predominantemente extrativista e de produção agropecuária. Esse é um estigma que sempre nos foi presente, esse foi o fator que trouxe a exploração do país, o fator que trouxe a exploração para as pessoas daqui e as pessoas que foram trazidas à força aqui. Fator que levou a muitas instabilidades e golpes no governo. Fator que impede a redução de desigualdade. Fator que também impediu uma reforma agrária como era de interesse haver no país desde os tempos monárquicos. Porém não posso negar que graças a isso somos um país rico, um país com grande produção, grandes exportações, um grande mercado e de grande interesse mundial. Alimentamos o mercado chinês de soja, alimentamos o mundo com nosso gado, que inclusive consome soja também (às vezes). Também alimentávamos o mundo com açúcar e entre outras riquezas que já fomos campeões de produção no mundo. 

É necessário termos uma diversificação de economia para termos mais solidez frente às crises de setor, crises do clima e crises políticas que possam eventualmente colocar a soja em risco ou outra commodity. Com uma economia diversificada dificilmente uma queda nos derrubaria tanto. Porém, bem, antes com isso do que sem isso. Considerando, claro, que seja feito com responsabilidade e não leve ao desmatamento desenfreado, destruição de biomas, acúmulo de poder, grilagem de terras e por aí vai. Todo o papo que já conhecemos do nosso Brasil e não é bem o foco deste episódio nosso aqui. Dito tudo isto, o episódio será justamente falando bem de tudo que problematizei anteriormente. Aliás, por isso problematizei antes, para agora trazer essa história de sucesso que nos transformou nessa potência agrícola. Temos tempo bom, Pero Vaz de Caminha disse que aqui “se plantando tudo dá”, mas não é bem assim. Ainda mais a considerar que muitas das nossas culturas daqui são de gramíneas que não são nativas daqui, como é o caso do arroz, soja, trigo. O milho é americano mas muito mais presente na região mexicana do Yucatan. A américa do sul sempre foi mais forte na produção de tubérculos, os Incas domesticaram batatas e os povos brasileiros, separados pelos andes, desenvolveram nossa mandioca. Então todas as outras culturas não nativas podem ter alguma mínima dificuldade de serem produzidas com qualidade aqui. Algumas plantas, como a jaca e manga, mesmo não sendo nativas daqui, se deram muito bem, tão bem que são quase pragas em algumas florestas, como o Parque da Tijuca, no Rio de Janeiro. Hoje somos um gigante produtor de soja, a soja hoje toma lugar do pasto e do arroz nos pampas gaúchos que visitei esse ano e se expande no Brasil, mas essa história não foi fácil, a soja foi domesticada na ásia e sua adaptação aqui exigiu muita ciência. Por isso hoje falaremos de Johanna Döbereiner, a pessoa que descobriu como plantar soja no Brasil!

Ela nasceu em 28 de novembro de 1924, também meu aniversário, mas na Tchecoslováquia. O nome dela não é diferente do nosso padrão à toa. Seu pai era químico e trabalhava com a produção de adubos químicos. Terminada a Segunda Guerra Mundial, a população de língua alemã foi intensamente perseguida na Tchecoslováquia – os que sobreviveram foram expulsos do país e com isso a família se fragmentou. Foi o que aconteceu com Johanna, que seguiu com os avós para a Alemanha Oriental, onde trabalhou para o sustento dos três, numa fazenda, ordenhando vacas e espalhando esterco para adubar o solo. Sim, esse é um detalhe importante aqui! Estudou na Escola Superior de Agronomia, perto de Munique. É bom notar aqui que ela veio para o Brasil numa época onde a Alemanha estava extremamente abalada pela Segunda Guerra. Não era, definitivamente, um país num bom estado para pessoas se desenvolverem. Era um país ocupado após a derrota de uma guerra terrível. Ela dizia que “O diploma de agrônomo não valia muito, já que depois da guerra […] os cursos na Alemanha eram muito fracos […] não havia laboratórios.” Na Escola, conheceu seu futuro marido, Jürgen Döbereiner, estudante de veterinária. Em 1950, o casal migrou para o Brasil. “Eu tentei sempre ser o mais brasileira possível, tentei não ser diferente, tentei me ajustar.”, dizia.

Migrou para o Brasil em 1951, quando começou a trabalhar no Laboratório de Microbiologia de Solos do antigo Departamento Nacional de Pesquisa e Experimentação, DNPEA, do Ministério da Agricultura, localizado em Seropédica-RJ, onde hoje se encontra e faz parte a Rural, a UFRRJ, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. E o trabalho dela não foi fácil de começo, ela dizia que “Eu não sabia de nada, nunca tinha trabalhado em laboratório […] foi preciso mais de um ano, talvez, para eu aprender o beabá em microbiologia.” Naturalizou-se brasileira em 1956, ou seja, já após os 30 anos de idade. E completou a pós-graduação na universidade de Wisconsin, em 1963. Posteriormente esse laboratório e departamento foram anexados à Embrapa, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, criada em 1972, e que carrega boa parte da economia do país nas costas, juntamente com outras companhias estaduais de pesquisa agrícola. 

A grande contribuição dela se dá pelo estudo de microbiologia de solos, no processo de fixação de nitrogênio. Ela notou algo estranho de começo “Quando fui confrontada com a agricultura tropical, eu sempre achei curioso […] que a grama-batatais, que cresce em todo lugar, permanecesse verde e viçosa sem que ninguém nunca a adubasse com nitrogenados. O mesmo com a cana-de-açúcar, cultivada há séculos sem adubação,

mantendo uma certa produção constante.” 

Como ocorreu no porto do Líbano no ano passado onde a nitrato de amônio explodiu a cidade inteira, muitos países utilizam desse composto nitrogenado para adubação química do solo para garantir uma boa produção. Isso porém é mais caro e perigoso em diversos aspectos para os humanos. Porém existem bactérias chamadas diazotróficas, que são capazes de fixar nitrogênio atmosférico (N2), que existe em extrema abundância. Elas são capazes de transformar o nitrogênio de uma forma não útil para as plantas, gás nitrogênio (N2) em uma forma útil (amônio, ou seja, NH4+).

O processo agrícola se utiliza dessas bactérias, introduzidas na raiz de plantas. Buscam o próprio alimento usando o nitrogênio do ar, produzindo nutrientes para a planta e esta fornece material orgânico (glicose) produzido por meio da fotossíntese, dispensando adubação. O nutriente é capturado do ar e fixado por bactérias diazotróficas, encontradas em muitos tipos de solos. Nas raízes, as bactérias nodulíferas têm, geralmente, alta especificidade para cada espécie vegetal, sendo muito comum, por exemplo, a simbiose entre plantas da família Leguminosae e bactérias diazotróficas conhecidas como rizóbios. Essa relação simbiótica muitas vezes ocorre com organismos adaptados um para os outros. A pesquisa de Johanna consistiu em perceber que a soja poderia ser produzida com o auxílio de bactérias do gênero Rhizobium. Porém, novidades muitas vezes não são tão bem vindas, as descobertas de Johanna foram criticadas pela comunidade científica, como ela disse “O pessoal me gozava, acho que ninguém realmente me levava a sério, porque não existia na literatura qualquer descrição da associação entre bactérias fixadoras do nitrogênio e plantas superiores”. Ela adaptou linhagens da bactéria às condições da soja, reduzindo custos de produção com a utilização do citado adubo químico cheio de complicações logísticas e de aplicação. Aliás, isso também levou à diminuição da poluição dos lençóis freáticos e dos rios por esses fertilizantes, muitas vezes aplicados em excesso, muitas vezes mal aproveitado pelas plantas cultivadas. As bactérias garantem uma quantidade suficiente e necessária, no geral.

Eu queria ler um trecho da Empraba de uns anos atrás onde fazem, por alto, uma estimativa (com valores já defasados pela inflação) da economia que esse processo em que a soja se aduba sozinha com as bactérias em conjunto, vou ler, se preparem para as cifras: 

Caso o fornecimento de nitrogênio para a cultura da soja tivesse que ser efetuado via adubação nitrogenada seria necessário para uma produção média de 49 sacos/ha (produtividade média da soja na safra 2012/2013) um total de 588 kg uréia/ha (considerando uma eficiência de apenas 60%), a um custo médio (outubro de 2013) de R$ 906,00/ha. O custo por hectare da inoculação é de R$ 8,00. Ou seja, com o processo de inoculação são economizados R$ 898,00/ha. Se considerarmos os 27,7 milhões de hectares plantados com soja no Brasil, a economia proporcionada pela não utilização de adubos nitrogenados é da ordem de R$ 24,9 bilhões anuais, algo em torno de US$ 10,3 bilhões de dólares.

Mas o seu legado não se resumiu apenas na soja, sua pequisa diretamente impactou um outro produto brasileiro, a cana-de-açúcar, que há séculos matava milhares de escravizados pelo país. Na década de 70 disputas políticas dos países árabes com os ocidentais fizeram o preço do petróleo disparar e ele passou a ser um bem não tão disponível como antes. A petrobras ainda não era o centro de excelência como é hoje, que consegue garantir a autossuficiência nacional em combustível líquido. O trabalho com bactérias contínuo conseguiu em sequência descobrir oito espécies de bactérias diazotróficas associadas a gramíneas, cereais e tuberosas. Os melhores resultados ocorreram com algumas espécies de cana-de-açúcar. Como você viu anteriormente esse procedimento possui o grande fator de economia de produção. Com a cana de açúcar mais barata de se produzir temos então aí uma possibiliade de fazer do etanol de cana ser um produto viável para a utilização nos veículos. 

Aí está o caminho traçado para o Proálcool, o programa do governo que transformou em realidade a frota brasileira que pode ser movida por combustíveis que são quase neutros na emissão de carbono. O que os veículos queimam de álcool é reabsorvido na próxima safra de cana pela fotossíntese, garantindo um ciclo extremamente mais sustentável que o de qualquer outro combustível. Basta também garantirmos que a cana não desmatará mais áreas e que seja usada de forma sustentável e otimizada.

O processo de produção das bactérias em si se dá em laboratório. Onde se pega uma amostra isolada, então se inicia o cultivo delas, ou seja, o crescimento delas. Após então elas são inseridas numa espécie de substrato que posteriormente será usado na plantação da soja, ou de outra cultura. Vou deixar aí na bio um link para um Globo Ciência de 2005 onde uma ex-aluna dela, hoje pesquisadora da Embrapa, explica no laboratório o processo bioquímico das bactérias (https://www.youtube.com/watch?v=3mNFevjSq2s)

O contexto da soja se deu no passo do programa de melhoramento da soja, melhoramento genético mesmo. Transgenia, que não deve ser vista com maus olhos. Até porque a transgenia é o que a humanidade vem fazendo desde sempre com a agricultura. Selecionando as melhores características para termos uma banana sem sementes, um milho com muitos grãos, uma mandioca não tóxica. E nesse contexto se foi inserida a ideia de fixação biológica do nitrogênio como meio mais eficiente para as culturas de soja modificadas, modificadas a serem habituadas ao nosso clima e solo. 

A história da pesquisa da Johanna é contínua pois seu trabalho continua sendo desenvolvido por outros pesquisadores, inclusive aqueles que foram seus alunos orientados. Ela teve muitas condecorações no seu currículo, foi membro da Pontifícia Academia de Ciência do Vaticano (1978), apontada diretamente pelo Papa, da Academia Brasileira de Ciências, sócia-fundadora da Academia de Ciências do Terceiro Mundo,e indicada ao Prêmio Nobel de Química em 1997. Além disso, é a pesquisadora brasileira mais citada internacionalmente, e uma das mais citadas no país como um todo.

Espero que vocês tenham gostado desse episódio, e se interessem mais por pesquisadores e pesquisadoras nacionais. Da ciência desenvolvida no Brasil, que não é pouca e não é de baixa qualidade, impacta nossa vida, a economia e a política nacional e internacional. 

Como indicação hoje eu vou deixar aqui o super livro Debret e o Brasil, que eu ganhei de aniversário, inclusive. Um livro sobre toda a obra do artista Debret. Uma das pessoas chave da missão francesa que veio ao Brasil logo após a vinda da família real portuguesa para cá. Ele provavelmente é o nome mais famoso desse episódio da história e é também o artista que provavelmente mais fielmente retratou o Brasil da época, mostrando sua beleza e sua perversidade. Eu vou precisar de muito, mas muito, tempo para rodar por esse livro todo, mas já estou impressionado com ele. Fica o link aí no post.

E bem, se você gostou desse episódio, compartilhe nos stories, no twitter, onde você quiser e puder. Envie para todos! Isso ajuda muito, vocês não tem ideia. Aqueles que ainda não seguem podem seguir @guilhermesechat e @panoramascast. E aqueles que quiserem colaborar financeiramente podem ajudar pelo meio Apoia-se, pelo PicPay nessa mesma @ ou me mandando pix, sim, pix, para a chave contato@sechat.blog. 

Por hoje é só e nos vemos no próximo episódio!

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