Diários de Doutorado – 014

Dentre os grandes afazeres domésticos e extraoficiais sigo com o doutorado. Esses últimos dias foram tomados por dúvidas de como prosseguir no novo projeto. Acontece que para começar esse notebook aqui não é lá muito forte a ponto de rodar as redes neurais que me proponho a pesquisar. Essa semana foi para tentar alternativas a isso. Cheguei inclusive a fazer orçamentos de computadores montados personalizados mas o valor é um pouco assustador para esse bolsista CAPES aqui.

Para treinar redes neurais é muito bom que utilizemos placas de vídeo, pela sua arquitetura de funcionamento. Em vez dela fazer sequencialmente pequenas operações, como sucessivos produtos e somas num produto de matrizes ela consegue ser ágil nesse processo e realizar o produto matricial em si como uma atividade só. Isso agiliza e muito todo nosso trabalho. Imagine a cada vez que quiser testar algo no código ter que esperar por um dia.

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Depois de muito pensar e pesquisar decidi que não deverei gastar do meu dinheiro para isso. Percebi que é uma mentalidade errada essa a de pagar e investir no meu trabalho quando estou num lugar e instituições financeiras que tem o dever de me garantir tal possibilidade de trabalho. Digo isso principalmente sobre as agências financiadoras. É preciso que elas ofereçam a estrutura mínima para um trabalho ser bem feito. Talvez eu esteja comprando uma briga sem sentido com agentes que não existem mas é uma questão importante a ser levada em consideração.

Espero dentro das próximas semanas ou dias mesmo achar uma solução para essa questão técnica, mesmo que provisória. Pois já não basta a bolsa de doutorado não ter seu reajuste, as vezes é preciso simplesmente bater o pé e brigar pelo que é certo mesmo que seja mais trabalhoso. Eu comprei moto pois meu gasto era muito grande para deslocar. Mas se eu recebesse um vale-transporte como um trabalhador normal eu pensaria duas vezes nisso. Faria o trajeto mais rápido, e talvez mais caro, mas garantiria as possibilidades de trabalho suficientes para mim. Em vez disso comprei moto com meu dinheiro. Mas chega um ponto onde temos que não ceder tanto assim e reivindicar as possibilidades de trabalho melhores.

Comentários

Um comentário em “Diários de Doutorado – 014”
  1. Marcelo Marchiolli disse:

    Caro Sechat,

    durante meu doutoramento na UFSCar em física teórica fiz muitas concessões para obter condições melhores de trabalho, muitas vezes passando por dificuldades financeiras e restrições no dia-a-dia. Sempre me perguntava se tudo aquilo que estava passando fazia sentido e confesso, passado tantos
    anos depois, que realmente não vale a pena! O “amor pela ciência” em países como o nosso e na atual conjuntura que passamos, cobra um preço muito elevado e que não reflete no futuro.

    Posteriormente, acabei fazendo um pos-doc pela Fapesp na USP São Carlos. Naquele ano a bolsa da
    Fapesp era igual ao do CNPq (sim, já existiu esses dias e sou prova viva disso!) e as dificuldades financeiras continuavam mas a cobrança era ainda maior. No ano seguinte recebemos um aumento substancial de bolsa e isso nos assustou e muito pois pensávamos que era um erro da agência e que logo deveríamos retornar a diferença depositada em nossas contas correntes. Pegadinha ou não tal aumento era real e desde então houve esse descolamento de bolsas. Entretanto, as dores-de-cabeça aumentaram substancialmente, pois do nada fomos taxados por vagabundos pelos titulares da época. Deveríamos então dar aulas de graça para eles, como justificativa para tal aumento, além de conviver com o preconceito que por ora se instalava por lá. Indaguei um desses titulares se poderíamos obter algum documento por parte deles que fosse usado em futuros concursos para professores em universidades públicas, e como usual, a resposta foi negativa na época em que narro esse fato. Em suma, deveríamos
    assumir a carga didática deles, fazer pesquisa em curto intervalos de tempo e ainda ficarmos felizes com toda a situação criada por eles. Enfim, os poucos estímulos para continuarmos na carreira estavam contaminados por uma mentalidade mesquinha oriunda do próprio meio a qual queríamos nos inserir.

    Portanto, sugiro que em paralelo ao seu doutorado, pense em diferentes formas e meios de trabalho que não sejam obrigatoriamente dentro de uma universidade. Viver e ter qualidade de vida é muito importante para o pouco tempo de vida que nos foi dado. Aproveite de forma inteligente!

    Abraços.

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