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Diários de Doutorado – 011

Eu de costas usando uma camisa de manga longa azul, bermuda bege, bota bege, chapéu gaúcho preto. Estou na ponta de uma pedra sobre um vale verde com muitas casas no meio. É uma imagem bem alta. Mais ao fundo se vê uma baía e uma longa cadeira de montanhas depois dela. Metade superior da imagem é um céu totalmente azul sem nuvens.

Quanto tempo ein ? Esse tempo sem escrever nesses diários está totalmente ligado ao doutorado em si. Pois durante todo esse tempo fiz praticamente nada. Quem me acompanha pelo Instagram deve ter notado que fiquei mais ativo por lá. Distração. Distração dos problemas da vida. Dentre eles as escolhas de doutorado. Algumas partes desse tempo serão omitidas por serem de cunho mais pessoal.

Ano passado, lá por fevereiro, fiz um Python Summer Camp, um workshop que meu orientador e um amigo dele desenvolvem anualmente. Nessa minha segunda participação eu aprendi finalmente a mexer brevemente com machine learning. No meu canal e aqui inclusive vocês podem encontrar aqueles vídeos que fiz sobre programação. Nessa época eu tinha um plano em mente. Ser alguém misto ou mais focado em computação. Estava ativo, estava focado nisso. Fiz os vídeos como motivação. Assim como agora tenho feito vídeos tocando guitarra como motivação para eu treinar mais. E tem dado certo. E essa parte também estava dando certo. Aí veio a pandemia com tudo.

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Isso tirou as coisas do eixo e segui então em um outro projeto analítico seguro, não muito ambicioso mas muito interessante por ser integrado com grupos experimentais. Agradeço ao meu orientador por escolher isso. Pois já era um interesse meu ficar nesse mundo de interfaces entre grupos. Ser totalmente teórico não estava na minha mente há muito tempo. Desde que comecei a ter contato com laboratórios com divulgação científica para escolas que visitam o CBPF.

Enfim, mesmo tendo entrado num curso online de Machine Learning as coisas desandaram, não consegui acompanhar o ânimo e isso ficou de lado. Meu último vídeo do tema foi ao ar e segui nas minhas contas a mão, muito mais urgentes. Python era no máximo para uma matemática simbólica facilitada no Sympy. Mas acho que uma vez a mente desperta para uma ideia é difícil voltar ao status anterior. Alguém disse isso, mas esqueci, uma citação.

Dentre outras atribulação que se passaram na minha mente nos últimos meses essa foi uma delas. E todas elas interconectadas. Decidi então falar com meu orientador sobre essa tentativa de aprendizado. Tentar fazer algo computacional. Ousadamente ou burramente estou fazendo mudanças no último ano e meio de doutorado. O amigo dele que me ensinou Machine Learning está potencialmente virando meu co-orientador, mas como a área dele é física de partículas experimental terei que me desdobrar um pouco. Mudando assim levemente de área para poder aprender essas técnicas de inteligência artificial. Nada como um desafio para talvez me despertar.

Porém a vida no doutorado não é mole. Ainda preciso finalizar o último projeto comentado aqui. E nisso estou uma vergonha, no último mês NADA fiz, embora uma amigo trabalhando comigo sim. Preciso alcançar ele agora. Trabalhar nem que seja na força do ódio. Embora um pouco de culpa me falte pois estive nesse último mês sob uso de um medicamento que me deixava basicamente sonolento por boa parte do dia. Nossa, eu não estava com ânimo nem para lavar uma louça. Os stories deitados na cama não foram por acaso. Mas esse acabou ao menos! E o ânimo voltou até demais, “ânimo” não de estar animado, exatamente. Mas de ter atividade cerebral o suficiente para inclusive escrever um texto complexo como este.

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Nem mesmo a guitarra tenho pegado, e o violão apenas corriqueiramente. Foi um tempo de “férias” de certa forma. Essa mudança no doutorado não está consolidada e muito ainda precisa ser visto, na realidade tudo. Mas isso está relacionado à outra verdade.

Não sei se pretendo seguir na carreira acadêmica. Como cientista sim, mas não universitária talvez. Eu já comentei de várias críticas que tenho. E uma delas é a “instabilidade”, não exatamente financeira mas inclusive local. Pois agora aos 27 anos percebo que até eu conseguir uma vaga em algum lugar serão ainda bons anos fazendo pós-doutorado, pulando de galho em galho, vaga em vaga, bolsa em bolsa, país em país. Quando então terei minha vida ? Minha casa ? Uma estabilidade. Quando virarei “adulto” ? Essas coisas. Quando as coisas estarão estáveis a ponto de eu poder fazer as viagens que quero e até hoje não fiz ? Viagens de férias, não de trabalho onde dou uma escapada de um dia.

Enfim, esses são os pensamentos. Há muito por trás disso ainda, então não pensem também que a vida de doutorando tem acabado comigo. São as complexidades da vida, incluindo uma PANDEMIA interminável no meio disso tudo. Por hoje é só.

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