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Diários de Doutorado – 010

Selfie. Estou de camisa branca de manga longa e mochila escura. Estou num caminho numa floresta densa. Estou com rosto neutro em expressão.

O risco de ter iniciado um projeto de fazer diários pessoais sobre o doutorado é chegar momentos onde o que eu vou escrever é mais desmotivacional do que motivacional. Então vamos lá!

Quem tem bom tato deve ter percebido há um bom tempo eu flertando com o desinteresse na vida acadêmica. Ou seja, não seguir um pós-doutorado e depois tentar ser professor em alguma universidade. Vieram vários episódios recentes do Panoramas onde isso ficou mais evidente até. Com essa vibe de “tentar novos horizontes” e afins. Não era a toa, mas também não era nem recente. Vamos aqui às realidades, algumas já ditas.

Talvez no episódio Cortar eu tenha comentado de que quando sofri cortes da CAPES sem nenhuma culpa quis sair do mestrado e rever a vida. Talvez eu devesse ter feito isso, pensei várias vezes depois. E devo ter comentado tudo isso eventualmente. Bem, segui então para o doutorado, e a verdade é que ele também nunca seguiu muito bem. A verdade é que desde que a minha bolsa coisa cortada (e comecei a fazer divulgação online) as coisas andaram como antes na pós. Pois entrar nesse mestrado foi uma certa saga, abdiquei de muito para isso. De dinheiro guardado para realizar viagem dos sonhos (para quem acha trivial, primeira vez que entrei num aeroporto foi já no mestrado, antes apenas duas idas a SP de ônibus). E de tempo, foquei nisso, adiei formação, etc etc. Enfim, recompensado com uma bolsa cortada. Foi um impacto. E imagino que muitos sigam tendo essa experiência horrível.

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No doutorado nem sei bem o que fiz no primeiro ano dele, para ser sincero. Até ir ao Alabama, e lá perceber cada vez mais que essa vida acadêmica me é um pouco estranha e monótona. Ao menos a teórica, eu via meus colegas com experimentos e achando tudo interessante, e eu nas minhas contas. Voltei na vontade de mudar e comecei a agir para isso. Na real agi bruscamente, procurando até meios de mudar para algo meio experimental, mas a essa altura do doutorado já não seria algo factível. Então tracei um pano misto, focar na parte computacional onde eu teria uma boa interface com áreas mais aplicadas. Iniciei a série de vídeos no canal sobre programação para me motivar publicamente com vocês. Em fevereiro fiz uma Escola lá no cbpf onde aprendi o básico de Machine Learning. Iniciei então um curso online numa universidade alemã. Estava tudo se encaminhando, mas como sobreviver mentalmente intacto à essa pandemia interminável, e no Brasil ? Eu acho que é impossível! Tudo desandou, veio então um projeto legal, com interface meio experimental. Meu orientador é ótimo e soube bem sugerir um projeto de acordo com minhas vontades.

Mas quando o buraco é mais embaixo parece que as coisas não andam muito bem inevitavelmente. Talvez seja mais uma fase mas a realidade é que aguardo muito o fim do doutorado, embora sem muita energia para terminar. Paciência, agora tem que ir até o final, falta 1 ano aproximadamente. E isso não quer dizer o fim da vida de cientista. Existem outras possibilidades. Existem empresas, por exemplo. É algo que me atrai, não que depois eu não vá me frustrar por lá também, se eu seguir essa linha. Até me lembro do diretor do MINT, o local onde fiquei no Alabama, falando para mim que várias empresas estavam por lá interessadas em “jovens como eu” seja lá o que isso signifique exatamente. Talvez ele tenha visto coisas em mim. Talvez sim, pois me deu um volume das Feynman Lectures com uma dedicatória, ato que me motivou tanto quanto a experiência de trabalho por lá.

Esse texto não tem uma conclusão. Afinal, é um texto de um perdido procurando se encontrar. E imagine eu nessa posição de falar com vocês sobre a vida acadêmica. Resta seguir uma conveniente fala do Yoda e “ensinar sobre as falhas também” e não apenas dos sucessos e momentos de certezas. Se cuidem nesse país que mata pessoas e possibilidades e que ainda assim gosto tanto, por ser meu.

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