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Saudades de uma revista!

No mês de março foi lançada a edição da Superinteressante, bem, como em todo o mês há algumas décadas. Essa foi especial pois havia nela uma reportagem escrita pela Gabriela Bailas, minha amiga e companheira de podcast no Panoramas. Acompanhei esse processo desde o começo, e é realmente um processo. A revista saiu, comprei e isso me despertou algo novo, ou melhor, algo velho novamente.

Adolescente, tinha na minha casa uma assinatura da Super por uns anos e posteriormente da Mundo Estranho. Boa parte daquilo que muitas pessoas viam como uma alta cultura minha era na verdade, em boa parte, devida a leitura dessas duas revistas (mais a ME, eu era adolescente afinal). Sempre quis ter acesso a canais como Discovery e The History Channel, quando eram bons, mas nunca consegui. Demorei a ter internet, então elas realmente foram uma base para mim. E sinto até hoje que foi a melhor época de obtenção de cultura que tive. Mais do que hoje com a internet e diversos serviços de streaming, podcasts, canais, etc, disponíveis. Talvez seja apenas uma nostalgia despertada pela revista, mas talvez haja algo mais.

Eram apenas duas revistas por mês (Queria mais, queria Aventuras na História também! Essa meu primo quem comprava). Era um conhecimento relativamente escasso em comparação com o conteúdo hoje disponível na internet, como sabemos, mas isso talvez fosse o forte. É um conteúdo feito com muito cuidado e planejamento. Passa pela mão de uma, duas, mais pessoas. Possui um limitante de páginas e caracteres. Vem apenas uma vez por mês. E sim, estou listando coisas que parecem inicialmente negativas mas talvez sejam o trunfo desse formato. Vamos aos pontos.

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Não escolho o conteúdo. Sim, a revista vem e quem escolheu o que está nela não foi você. Claro que os editores possuem um público em mente mas esse público não possui um interesse exclusivo. Isso me fazia as vezes ver sobre temas que eu nunca pensaria em procurar. Lembro até hoje sobre ler (e ver o infográfico) sobre Emissários Submarinos na Mundo Estranho. Quando eu pesquisaria sobre isso ? Nunca, mas foi interessante saber sobre. Isso abre portas para conteúdos e trás consigo ainda um grande fator surpresa ao folhear a revista e descobrir os conteúdos presentes ali.

Mensalmente e limitado em páginas, ou seja, pouco conteúdo em comparação com a internet. Isso me fazia ler com menos ansiedade de procurar outra informação. Hoje as vezes assistindo a algo no YouTube me pego as vezes já abrindo outras abas relacionadas enquanto ainda assisto ao vídeo. Mal digeri e refleti sobre o tema e já estou procurando adições a ele. No fim aquele conteúdo realmente fixa ? Realmente saberei explanar ele para outras pessoas como algo que aparento saber ? A limitação do conteúdo serve tanto para me garantir essa atenção maior ao pedaço de informação que tenho como também para ter a parte mais relevante dele, se o corpo editorial souber administrar isso. Quando fazemos uma bio ou um currículo colocamos ali as informações que julgamos importantes, porém sabemos que simplesmente colocar tudo possível ali será um exagero de informações para quem estiver lendo. Afinal, se tudo for importante nada será. Fazemos uma curadoria na nossa bio e currículo. O mesmo é interessante para um conteúdo informativo. É o que diferencia ler na BBC sobre vacinas de RNA e ler numa revista científica especializada. E mesmo nos artigos científicos essa ideia acontece. É normal encontrar artigos de física com 4 páginas, na realidade, aposto que 4 já está começando a ser visto como grande.

Revisão e reflexão. Esse ponto inegavelmente só agrega qualidade. Este texto aqui sendo lido, quantas vezes acha que revisei até lançar ? Afinal, na revista depois de publicado não pode editar o “post”. Algum jornalista revisou para melhorar a escrita de forma a ser mais prazerosa ? Aliás, deixei ele tempo suficiente parado para eu refletir sobre o conteúdo ? A resposta é quase nada disso tudo. Conteúdo na internet é tão fácil de se fazer que as vezes, na ansiedade e necessidade de lançar, postamos coisas que poderiam terem sido revisadas, reduzidas, deletadas. Não temos tempo para as vezes incluir um refinamento artístico como as ilustrações na reportagem da Gabriela. E aí algo que poderia ser lindo fica apenas interessante.

Digo isso escrevendo justamente nesta plataforma que é o oposto disso que falo. Não quero chegar a muitos lugares com essa reflexão. Talvez eu volte a assinar a Super depois de todo esse tempo. Nesses tempos em que as revistas estão sumindo. Mas talvez eu esteja certo comigo mesmo. Talvez eu deveria pegar as revistas Pesquisa FAPESP que tenho aqui para visitas e ler eu mesmo. Talvez assiná-la também. Talvez eu deva inclusive trazer essas características de revista aqui para o site. Escrevi tudo isso numa tacada só, porém fiquei pensando no tema por 2 semanas. Talvez seja esse um começo.

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