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Diários de Doutorado – 008

Eu não sou uma máquina de calcular matrizes de Pauli!

E foi com essa frase que eu tive um bom momento de reviravolta na segunda-feira desta semana. Depois de mais de 12h sentado enquanto perdia uma feijoada fazendo contas o dia inteiro, muitas contas, muitas mesmo, dava para sentir no grafite sendo trocado. À noite tive uma reunião e meu orientador indicou que podeira ser uma boa ideia tentar fazer as contas computacionalmente, matemática simbólica, já até fiz vídeo sobre isso.

Não é necessário assisti-lo para o resto do texto, mas fica a propaganda. Nesse dia quando ele deu essa ideia, que já vinha rondando minha cabeça continuamente eu estava esgotado de tanto fazer contas e errar, não queria mais seguir e eis que achei nesse momento a ferramenta que fez tudo mais fácil. E ele entrou na “briga” também e tomou a semana para fazer as mesmas contas e comparar comigo e com meu colega. Uma semana trabalhando já na sobrevida, quando tu está no fim de uma meia-maratona, morrendo, e chega alguém falando para correr mais meia e fazer uma maratona completa. Difícil, mas foi, 99%.

Contexto. Fim do ano passado estávamos a fazer umas contas e faltava apenas uma parte trabalhosa mas simples para finalizar. Eu peguei um domingo, sacrifiquei um domingo, para adiantar tudo. Lembro que seria só um domingo de manhã e virou o dia inteiro, mas ao menos estaria metade do trabalho terminado. Segui o melhor procedimento, faltava só uma outra parte. Meu colega nesse mesmo tempo fez metade disso e fez de um modo mais difícil, me senti bem por ter tido a sagacidade as contas, coisa rara, sou ruim em matemática o suficiente.

E sou mesmo, pois praticamente tudo que eu havia feito estava errado, esqueci de levar em conta dois detalhes em tudo, efeito borboleta, tudo desandou. Fui então refazer e tudo veio com mais trabalho, e aí o inferno foi se montando. As coisas não iam batendo com as dele, eu ia errando sinais, errando fatores de 2, um misto de falta de atenção com TANTAS contas com inabilidade nas contas. E isso se seguiu até a última segunda-feira. Sucessivos erros, erro em cima de erro, escreve, apaga, escreve, apaga. Contas mecânicas e chatas, gigantes.

Computacionalmente o que me levava 1 dia passou a levar 5min, sem exagero, alívio. Ainda assim houveram dificuldades, errando códigos, mas apagar e escrever no computador é muito mais fácil. No último texto eu lamentava um pouco essa falta de habilidade matemática, e estou com razão. Mas a verdade também é que eu ignorei a habilidade de fazer computacionalmente. Aquela coisa, “julgar uma tartaruga pela habilidade de subir em árvores”. Eu não sou uma máquina de calcular matrizes de Pauli, eu preciso apenas do meu resultado. É bom eu ter habilidades em contas analíticas, mas não posso fazer isso definir meu futuro. Imagina, eu estava já no “não sirvo pra isso”.

Enfim, foi muito tempo de insistência batendo contra uma parede até ela se romper, quando na verdade era só usar uma marreta. Usar a marreta não tira o mérito, e no fim o objetivo é romper a parede e não em como romper. Por conta disso fiquei realmente de cabeça cheia. Surgiram lives, reuniões, tudo junto. Tudo convergindo, e não tirava as contas da cabeça. Até na moto as contas estavam lá, me botando em risco na estrada. Não é saudável. Fui sugado por essa insistência burra. E sigo ainda exausto. Mas acho que aprendi essa lição de vez.

Se passou mais de 1 mês desse ano, passei o começo fugindo da covid nas pessoas aqui de casa, depois passei outra semana de pintor reformando um cômodo. Não peguei na minha guitarra UM DIA sequer. Quando dava tempo eu não tinha coluna ou disposição para isso. Sucumbi fácil na insistência das contas. Assustador. Vamos ver se não caio nessa novamente. 21 fev e o ano até então passou em branco quase. A receita certa para se arrepender ao fim da vida.

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