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Diários de Doutorado – 003

Esse será um diário de futuro pós-doutorado. Não sei se é uma epidemia, pandemia ou se apenas estou na conveniência de ter muita gente similar ao redor. Muita gente desistindo da carreira acadêmica. A maioria dos motivos é a pressão, é a ansiedade, é a instabilidade, é a falta de investimentos. Ainda estou pra chegar na parte crucial disso, a parte do desemprego, digo, a parte pós título, mas não é como se isso fosse algo alienígena para mim. Outra amiga uma vez me perguntou se eu as vezes pensava em sair da carreira, se não me via nela e disse que sim, e na realidade que acho que é normal até. Ela ficou razoavelmente aliviada, acho. Mas o que está acontecendo ? Bem, essa será minha reflexão baseado apenas em conversas, não em dados, não em muitos estudos sobre isso. Afinal, é um diário. Nem sei se realmente tem gente lendo.

Após eu ter criado um site na internet, não esse, um outro: Informação Acadêmica. Ele me tomou muito tempo e animação, que desviou para sempre meu foco exclusivo da física unicamente. E achei bom, achei bom pois me fez mais completo, mais ligado no mundo ao meu redor. E talvez desde então eu não tenha tido um foco exclusivo e mortal com a vida acadêmica, não que a tenha abandonado, mas não tenha levado uma vida, que é muito comum, de dedicação exclusiva (aliás, isso está no contrato…) a todos os afazeres acadêmicos. Mas ainda assim eu era suficientemente ansioso com toda a vida acadêmica. Queria terminar a graduação correndo, tão correndo a ponto de eu ter evitado ir ao Ciência Sem Fronteiras para não atrasar a graduação e deixar o intercâmbio para o futuro. Haja vontade de terminar, mas a vida online me sabotou, uma calmaria de uma greve também matou essa ânsia e aí me vi inclusive tendo minhas notas despencando para a média 6, foi uma função degrau, para os habituados. Depois comecei a reprovar e aí comecei a aceitar um desempenho meio medíocre. Não digo isso nem como algo ruim nem como algo bom, mas como algo equilibrado num momento de incertezas.

Amadureci a ponto de atrasar minha graduação planejadamente para me especializar mais fazendo uma iniciação científica, resolvi que nenhuma pressa valia uma boa formação. Posteriormente no mestrado levei a mesma filosofia e me formei um semestre a mais do que o esperado (embora alguns já saibam aqui dos meus perrengues com cortes de bolsas e regras burocráticas, mas isso fica para depois ou ouça o Panoramas). Mas ao longo da minha formação veio essa ideia cada vez mais fixa, que se iniciou após eu sair do pré-militar (onde dei minha vida para a os estudos como nunca mais fiz), de que o esforço vale a pena se o revés não for tão grande quanto o possível ganho. No pré-militar estudei todas as horas da minha vida, domingo a tarde era meu tempo de descanso, era comum eu levar livros e exercícios para almoços de família, eu era bom a ponto de realente estudar bem mesmo nessas condições. Enfim, muito esforço. Mas isso me levou a ter uma visão de que é uma vida que não é sustentável.

Vejo muita frustração de pessoas na vida acadêmica em situações onde, pelos relatos, houveram muito muito esforço e sacrifícios para uma carreira que nunca parece finalmente ficar estável. Se preparar para algo que nunca chega. Uma Vitória de Pirro. A vida acadêmica pode pedir muito de você, pedir que você viva numa kitnet e 3 títulos acumulados na sua gaveta do seu único armário. Títulos que fazem de você uma pessoa particular no seu país mas ao mesmo tempo levando uma carreira que mais lembra uma vida de quem está apenas numa graduação infinita. Quando é suficiente ?

Um pesquisador conhecido no Brasil comentou uma vez que quando estava iniciando a vida acadêmica ele conseguia acompanhar todos os artigos da sua grande área semanalmente, hoje em dia isso é impossível em qualquer área. O que aconteceu eu não sei, se o número de pesquisadores disparou no mundo, ou se a produtividade que aumentou. A vida livre acadêmica também acaba por deixar ela infinita, o trabalho que não acaba. Daí passa a ser normal estar às 22h trabalhando. A crise em que o país se encontra faz as vagas ficarem escassas e com isso a necessidade de se destacar mais ainda. E então vem essa corrida interminável para montar currículos, fazer o maior número de artigos possível nesse início de carreira, dar uma volta ao mundo obrigatória (mesmo que talvez não seja sua vontade), aturar chefes abusivos, viver em condições precárias (pois está longe da família) ganhando uma bolsa menor que um salário de atendente de loja (nenhum problema, mas é menos complicação conseguir esse emprego). Ao fim tudo parece não valer a pena e a pessoa parece ter levado tudo aquilo no automático, por uma obrigatoriedade da carreira e do currículo montado. E é fato que isso vai ajudar seu currículo, mas ajudará você ? Chegará, se já não chegou, o momento onde é humanamente impossível montar esse currículo surreal. O currículo que te impedirá de casar, ter uma casa, filhos, carro aos 35 anos. O ser humano pode até estar vivendo mais, mas só se é jovem por um tempo.

Eu não sei se estou imune a isso, mas já tem tempos que assumi certa mediocridade de carreira. Talvez eu tenha exagerado, talvez esteja completamente errado. Mas já não deixo pressões externas me levarem por muito. Não luto mais para ser o melhor, como na graduação ao começo pensava, levar mais a carreira como uma maratona do que uma corrida de 100 metros interminável. A vida é uma maratona, afinal. Eu perdi, no sentido normal, meus anos de 16-18 anos pois passei eles todos estudando interminavelmente. Teve um ponto positivo nisso, conhecimento, mas valeu mais saber que isso não foi exatamente saudável. Nessa corrida é mais provável que terminem todos cansados, exaustos e frustrados. Ainda mais quando o prêmio final depende do governo abrir vagas e professores antigos resolverem se aposentar e ceder as salas que ocupam há décadas ‘ensinando’ alunos pós-docs de 40 anos.

Acho que a carreira podeira ser reformulada, seja lá por quem e como. Ajudar o aluno a ser mais maduro profissionalmente em menos tempo. Deve ser possível, em menos tempo que isso (ou no mesmo tempo) fazem um calouro de medicina virar um cirurgião que tem, literalmente, a vida de pessoas nas mãos, deve ser possível repensar a pesquisa num modo a dar mais estabilidade, mais visão interdisciplinar, mais liberdade de escolhas que o inevitável rumo de 3 pós-doutorados de contratos curtos e que não te garantem estabilidade e longevidade suficiente para parcelar nem a compra de uma geladeira.

Acho que ficou longo, mas acho que foi necessário. Talvez eu esteja me sabotando academicamente, mas talvez eu esteja certo comigo mesmo.

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