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Uso da malária para a cura da sífilis

Imagem de capa: Ilustração da Treponema pallidum

Um paciente em estado grave dá entrada no hospital.

A equipe médica, correndo contra o tempo, realiza uma série de exames que identifica infecção por sífilis.

Após deliberação entre os profissionais responsáveis pelo caso clínico, eles já têm um plano.

Os familiares autorizam os médicos a introduzirem o protozoário causador da malária na corrente sanguínea do paciente, iniciando, assim, o progresso fisiológico para a cura da sífilis nessa pessoa.

Elenco da série “Dr. House”

Essa atitude – verdadeiramente digna do Dr. Gregory House e de sua equipe – ultrapassa a ficção, sendo, por muito tempo, esta um dos métodos usados para o tratamento da sífilis em pacientes graves.

Antes da descoberta da penicilina (já tem texto aqui no blog sobre 🙂 ) e de outras técnicas modernas existentes atualmente, um dos protocolos médicos era deixar o paciente com sífilis mais doente ainda. Como se não bastasse a bactéria da sífilis causando todas as complicações ao sistema humano, essa profilaxia deveras “exótica”, havia também o protozoário da malária.

A esse método dá-se o nome de malarioterapia, no qual inocula-se o Plasmodium vivax (causador da malária terçã ou benigna) em pacientes com sífilis. A explicação para esse tratamento incomum é que, resumidamente, os ciclos de febre (de 3 em 3 dias) desencadeados pela malária terçã são capazes de destruir a Treponema pallidum, agente infecciosa da sífilis.

Treponema pallidum em microscopia eletrônica

O médico responsável pelo estudo da malarioterapia foi o Dr. Julius Wagner Jauregg, psiquiatra austríaco formado pela Universidade de Viena. Em 1917, a fim de combater os danos neurológicos ocasionados pela sífilis, ele experimentou infectar seus pacientes com o protozoário da malária. Após alguns dias, grande parte dos infectados foram curados pela sífilis.

Dr. Julius

A partir daí, essa técnica foi amplamente difundida pelo mundo. Consta que dezenas de milhares de pacientes, entre os anos de 1917 até meados de 1940 (ano da descoberta da penicilina), foram submetidos a esse procedimento.

Dr. Julius e sua equipe nos estudos sobre malarioterapia

Por sua revolucionária descoberta, o Dr. Julius recebeu o Nobel de Fisiologia e Medicina em 1927.

Óbvio que hoje esse método não é muito utilizado, haja vista a presença de antibióticos que combatem efetivamente a Treponema pallidum.

Quem imaginaria que infectar um paciente traria benefícios ao seu tratamento, não é mesmo?!

Para os conhecedores da série “Dr. House” sabem que o Dr. Julius pode, sim, ser considerado um Gregory House da realidade, uma vez que foi surpreendente, frio e contra qualquer padrão.

Bem inusitado e corajoso, para falar o mínimo.

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