Descartes e Bacon: pensadores com filosofias opostas, mas que ajudarão você nos seus estudos

Calma, eu sei que isso parece uma propaganda enganosa ou um clickbait…

Mas ao longo desse texto, irei mostrar com duas filosofias totalmente opostas podem maximizar a forma como estuda, e lhe dar resultados expressivos, seja na escola ou mesmo na faculdade.

Antes de apresentar essa noção, para aqueles que desconhecem esses filósofos, irei fazer uma breve síntese de suas ideias. Vamos lá?!

O RACIONALISMO

Na filosofia, sem dúvida, o maior expoente dessa corrente de pensamento é o matemático e filósofo René Descartes.

De origem francesa humilde, Descartes dedicou sua vida filosófica a entender como adquirir conhecimento verdadeiros em diversos ramos. Para ele – dialogando um tanto com Parmênides e com Platão -, a busca pela verdade deve ser movida pela razão pura, a partir de conceitos e definições, e deve evitar as experiências, uma vez que os sentidos humanos podem falhar e, assim, não devem merecer a confiança do cientista.

Portanto, para o pensador, o cientista (lê-se aqui, também, o estudante ou o acadêmico) deve abdicar das sensações e experiências, pois elas são ilusões constantes.

O EMPIRISMO

Em contrapartida ao racionalismo, está o empirismo, representado aqui por Francis Bacon.

Para Bacon, filósofo inglês do século XVII, o conhecimento deve ser fruto da observação, dos sentidos e das experiências, e que elas, ao contrário do que dizia Descartes, auxiliam o cientista (lê-se, novamente, o estudante ou o acadêmico).

Atualmente, seu método indutivo/científico, é bastante usado nos meios acadêmicos e é máxima relevância para o progresso científico contemporâneo.

Já percebo uma expressão de dúvida em você…

“Mas como isso é possível?”, você me pergunta. “Um dizia que o conhecimento dá-se pela razão e devemos fugir das experiências. O outro, por sua vez, dizia que devemos sim confiar nos nossos sentidos e experiências…”

A esses seus questionamentos, eu respondo: “O texto não acabou. Dê uma olhadinha nas linhas abaixo…”

Agora que já está devidamente apresentado aos pensadores, vou dissertar sobre como juntar argumentos opostos podem te ajudar no seu aprendizado.

FUGINDO DO ÓBVIO

Antes, gostaria de dizer que não irei me basear na filosofia kantiana, cuja noção foi mesclar o racionalismo e o empirismo. Nesse texto, irei fugir do óbvio e trazer uma discussão mais profunda e tão menos elementar.

Como Jack, o Estripador, vamos por partes…

Na obra “Discurso sobre o método” (1637), René Descartes cria uma série de passos ordenados para a obtenção do puro conhecimento: o método cartesiano.

São quatro passos, a saber:

  1. Regra da Evidência: a pesquisa/o estudo deve buscar seu ponto de partida em temas que sejam aparentes e evidentemente verdadeiros. Aquilo que já sabemos ser falso não merece atenção científica;

O autor, a fim de minimizar o tempo gasto nos estudos, esclarece que devemos fugir de assuntos que sabemos serem falsos. Por exemplo, a Terra ser plana que nem uma mesa é uma inverdade, e, por isso, de acordo com Descartes, não deve ser levada a sério no meio científico.

2. Regra da Análise: a pesquisa/o estudo deve ser recortada em temas menores para quase tenha um ponto palpável de investigação;

Aqui, fica claro que para melhor compreensão do objeto de estudo, a compartimentalização e a topicalização em pequenas ideias que contribuem para o entendimento de um todo científico devem ser aplicadas. Ao estudar, por exemplo, o movimento circular de um carro numa pista curva, é preciso que o estudante aprenda conceitos como velocidade, aceleração, forças, atrito… Se o mesmo tentar aprender, sem antes fazer o recorte nessas definições, ele não aprenderá nada!

3. Regra da Síntese: a pesquisa/o estudo deve ser iniciada dos assuntos mais simples para os mais complexos;

Parece óbvio isso, porém muita gente, tanto na escola quanto na faculdade, quer entender algo sem antes aprender o básico naquilo. Imagina você entregar uma receita de bolo para alguém fazer em casa, mas ela não soubesse ler a receita, ou entender as medidas usadas. Não me surpreenderia se, nessa situação, a pessoa não conseguisse fazer o bolo. A mesma ideia deve ser aplicada aos estudos: antes de querer entender algo, tente aprender o básico antes.

4. Regra da Enumeração: os resultados devem ser constantemente revisados para que sejam verificadas possíveis falhas;

Nesse último passo, você, ao terminar qualquer estudo, deve testar para ver se realmente aprendeu e corrigir possíveis falhas. E qual a forma mais segura e antiga de se testar algo? Fazendo exercícios! Quanto mais questões você resolver sobre o assunto que estudou, mais está preparado e, invariavelmente, menos a probabilidade de cometer um erro.

Já Francis Bacon, em seu livro “Novum Organum” (1620), nos adverte sobre possíveis ilusões que podem influenciar, negativamente, o método de obtenção do conhecimento. Essas ilusões são chamadas, pelo autor, de ídolos.

São quatro os Ídolos de Bacon:

  1. Ídolo da Tribo: ilusão quando o ser humano considera-se acima da natureza, não considerando suas limitações físicas e mentais;

Quantas vezes você passou a madrugada acordado, sob efeito de medicamentos e energéticos, estudando para o vestibular ou para uma prova muito difícil na faculdade? Passou mal pela ansiedade ou pela insonia? Então, era sobre isso que Bacon dizia: nós nos enganamos ao pensar que devemos excluir nossas limitações humanas, e as consequências podem ser duradouras. Descanse e estude com moderação. O descanso é tão importante quanto o estudo. (Já escrevi sobre a importância do descanso nos estudos, clique no link para saber mais: https://sechat.blog/2020/03/31/artigos/o-legado-do-prof-pier/ )

2. Ídolo da Caverna: ilusão na qual o sujeito é incapaz de compreender qualquer forma de diversidade alem daquilo que construiu e pensa;

Isso aqui é muito presente nos cursinhos preparatórios para vestibulares. O indivíduo, inocente e inexperiente, escolhe não estudar a matéria X e Y por não gostar delas e, quando chega o resultado final da prova, nota que não conseguiu a sonhada aprovação, pois justamente as matérias X e Y foram as responsáveis (na visão dele) pela sua reprovação. Coitado, se tivesse estudado Bacon antes, veria que ao deixar de estudar matérias que não gosta, o indivíduo comete um erro crasso.

3. Ídolo do Forno: erros e incompreensões do conhecimento devido ao desconhecimento dos significados das palavras;

Segundo o pensador, o uso de vocabulário impreciso permite que você e as pessoas ao redor (avaliadores de prova ou colegas de laboratório, por exemplo) fiquem incomunicáveis, pois não há o conhecimento do linguajar técnico necessário em determinados locais e situações. Logo, se a comunicação fica dificultada, quiçá o aprendizado.

4. Ídolo do Teatro: ilusões ideológicas frutos de projetos e ideias que nunca foram verdadeiras e, portanto, são seguidas e defendidas como verdade;

Voltemos ao exemplo anterior da Terra plana. Por jamais ter sido provada cientificamente, é considerada como um falácia, mentira, história para boi dormir… (ou qualquer outra palavra com mesmo significado). São meras especulações que não saem do plano real e cognitivo.

Por fim, concluo que: primeiro, esse texto não é, nunca foi e está longe de ser um clickbait; segundo, é possível, nesse caso, juntar ideias opostas para um fim comum.

Juntando essas duas escolas filosóficas, podemos, sim, conseguir aprimorar nossa capacidade de aprendizado e aplicar isso em qualquer área de nossas vidas, acadêmica ou não.

Espero ter deixado claro minha ideia!

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