Saúde mental na universidade: um relato de superação

Desde os 14 anos, sonho com a carreira acadêmica. Mesmo não entendendo esse misterioso mundo, àquela altura já me imaginava dando aula em faculdade, escrevendo livros, fazendo pesquisas. Aprendi a falar inglês na infância, tirei meu certificado Cambridge aos 16 e comecei a dar aulas de inglês. Sempre fui incentivada a fazer Letras, porque amava escrever, ler, amava as aulas de gramática, e ajudava todos meus amigos com redações. O incentivo aumentou ainda mais ao tirar nota 1000 na redação do ENEM de 2014. Tive uma professora de gramática que me incentivou muito neste sentido, e parecia que minha vida já estava toda traçada: eu faria Letras, faria mestrado e doutorado em alguma área dentro da teoria literária ou da linguística, e prestaria um concurso público para dar aula em uma universidade federal.

Mas quando saímos do ensino médio, logo aprendemos que a vida é mais imprevisível do que isso. No terceiro ano de Letras, numa faculdade particular, tive momentos de me questionar sobre este caminho aparentemente perfeito, e percebi que estava infeliz nele. Depois de muita reflexão, voltei para o cursinho para entrar numa universidade pública em ciência política.

Acontece que depois de 4 anos fora do ensino médio, tendo que trabalhar enquanto fazia cursinho, tudo ficou ainda mais desafiador. Eu, que sempre tive muita dificuldade em matemática e física, sofri muito no ensino médio, com professores que falavam que todos os alunos “de humanas” (se é que existe esta distinção) eram burros demais para passar num vestibular. Os traumas neste sentido eram tantos, que me levaram a desenvolver síndrome do pânico só de pensar em fazer um vestibular, e me traumatizaram com matemática e física. Entrar no cursinho foi reviver todos esses traumas e enfrentá-los.

Nem acreditei quando passei na UNIFESP, a universidade federal de São Paulo. Já estava desacreditada, na segunda lista de chamada, já achando que não tinha mais jeito. E quando saímos do cursinho ou do ensino médio e passamos nas universidades públicas, no curso dos nossos sonhos, com isso vem uma carga pesadíssima, envolta em idealizações do ambiente acadêmico e uma autocobrança sem precedentes por estarmos naquele espaço.

Eu, que sempre tive ansiedade e faço tratamento desde a adolescência, tive um primeiro ano muito difícil no quesito saúde. Tive cálculo renal no fim do primeiro semestre, e fiz trabalhos e provas na maca do hospital. Tive ataques de pânico e fobia social gravíssimos, que só passavam se eu me trancasse no banheiro da faculdade e ficasse sozinha. Olhar para as pessoas e pensar em falar com elas me desencadeava crises horríveis. Tive professores incríveis, mas logo no primeiro semestre tive dois professores cobrando um nível de leitura de textos filosóficos impensável para quem acabou de entrar na universidade, e diziam que isso era para “já irmos nos acostumando, porque ler Kant não é para qualquer um, ler e entender teoria política clássica é para poucos gênios, e provavelmente 90% dessa turma nunca vai conseguir”.

Diante de tudo isso, hoje ainda sofro com ansiedade, mas bem menos do que nesta época. Agora na reta final do curso, apesar de ser um momento em que geralmente as pessoas sofrem muito, ficam ansiosas com o TCC, eu me sinto em paz, porque busquei o tratamento correto, com profissionais de qualidade; busquei me unir às pessoas que amo, e cuidar de mim mesma.

É óbvio que ao vermos os coachs dizendo que “curam sua ansiedade em dois dias”, todos que sofremos deste transtorno gostaríamos demais que isso fosse verdade! A gente que sabe o que é ir pro hospital com taquicardia, as mãos formigando, vomitando, sabe que ansiedade não é uma “frescura que vai passar”. Só quem já teve síndrome do pânico a ponto de não conseguir levantar da cama e ir para a aula, por ficar paralisado pela sensação irracional de um perigo iminente, paranoico com como vão nos julgar, ou que algo terrível nos aconteça, sabe o desafio que é ter sucesso no meio acadêmico sem adoecer.

Se você passa ou já passou por algo semelhante, já teve sintomas de depressão, já sofreu abusos psicológicos, morais, entre outros, por parte de professores: em resumo, se a universidade não está sendo um ambiente prazeroso, e se você está sofrendo por causa da pressão acadêmica, os conselhos que eu dou, pela minha experiência própria:

1. Procure ajuda de profissionais QUALIFICADOS.

Procure psicólogos, psiquiatras, faça terapia e tome medicamentos. Esses profissionais existem para cuidar de você da melhor forma possível. Por favor, não corra atrás de promessas de curas milagrosas. A ansiedade e a depressão só são amenizadas com o tratamento adequado, de profissionais que estudaram anos para se qualificarem a atendê-lo da melhor forma. A maioria (se não todas) universidades públicas tem o Núcleo de Apoio ao Estudante, e ofecerem serviços como esses de forma gratuita para seus alunos. Procure ajuda nestes locais.

2. Una-se a uma rede de apoio de sua confiança

Abra-se e desabafe sobre o que está acontecendo com você. Família, namorado ou namorada, amigos próximos, eles vão te entender e estão lá para cuidar de você. Não fique sofrendo sozinho, não se isole na sua dor.

3. Tenha uma vida equilibrada

Não fique estudando todos os dias incansavelmente. Cobre-se menos e compare-se menos com os colegas. Lembre-se que você está dando o seu melhor, que você é o suficiente, você é uma pessoa inteligente e vai conseguir aquela nota merecida. Mas não corra atrás desta nota às custas das outras áreas da sua vida. Descanse, passeie com os amigos, tenha hobbies, tire momentos do dia para se divertir e relaxar.

4. Cuide-se por inteiro.

Além da ajuda de psicólogos e psiquiatras, estão mais do que comprovados os benefícios da atividade física para quem tem ansiedade ou depressão. Faça caminhadas no parque, alongamentos, dance uma música que você gosta, mexa-se! Beba muita água, coma de forma balanceada. Coloque na sua rotina momentos para focar em si mesmo e no autocuidado.

5- Parabenize-se pelas suas conquistas!

A gente costuma se comparar tanto dentro da universidade, e focar tanto no que não fazemos. “Aquela pessoa passou na bolsa de pesquisa e eu não, eu tirei uma nota menor do que o fulano, o professor disse que quem não fizer todos os fichamentos da bibliografia não vai aprender nada”. Não entre nesse ciclo destrutivo! Parabenize-se e foque nos seus pontos fortes! Priorize o que realmente é essencial, organize-se, coloque metas realistas e comemore quando você alcançá-las.

Concluindo: acho que há várias importâncias no projeto Física e Afins. Entre as coisas boas que este projeto me trouxe, foi superar o pavor de física (rsrs), e hoje tenho até livros de astrofísica, e uma biografia do Isaac Newton na estante! Mas algo fundamental, na minha opinião, é que aqui há realmente uma rede de apoio, entre pessoas de várias áreas da ciência, e isso tem que ser alimentado: menos competição entre pares, e mais empatia e suporte. Vamos comemorar uns as vitórias dos outros, e se ajudar quando necessário. Afinal, divulgação científica vai além de aumentar o acesso ao conhecimento: também envolve o esforço de criar um ambiente saudável dentro da universidade.

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