Os fungos realmente são bonzinhos?

Imagem em destaque: Cogumelos da espécie Amanita muscaria. Fonte: Google imagens, 2020

Como sabemos, os fungos são organismos eucariontes que covivem com o seres humanos a muito tempo, uma vez que estão presentes em praticamente todos os ambientes, realizando a decomposição da matéria orgânica, auxiliando as plantas por meio de associações micorrízicas além de servir como alimento para algumas espécies de animais, como nós por exemplo. Mas será que eles só trazem benefícios? Existem diferenças entre os fungos? Quais são perigosos para a saúde e por quê?

Diferenças taxonômicas

Por mais que tenham características em comum, os fungos são classificados baseado na sua morfologia (sua forma, aparência) e no seu estágio sexual. Morfologicamente os fungos podem ser divididos como: Leveduras, Fungos filamentosos (ou bolores) e Cogumelos .

As leveduras são organismos compostos por uma única célula de forma esférica que pode se reproduzir assexuada ou sexuadamente. Quando são cultivadas em um meio que permita seu crescimento e identificação, chamado meio de cultura, elas se aglomeram formando colônias visíveis a olho nu de aspecto pastoso ou mucoide. Como exemplo temos o Saccharomyces cerevisiae conhecido como levedura de cerveja, uma vez que é utilizado na produção de cerveja e de pão por meio da fermentação.

Colônias leveduriformes presentes em meio de cultura. Fonte: Google imagens, 2020

Já os fungos filamentosos são organismos multicelulares constituído por hifas (células justapostas que formam estruturas cilíndricas filamentares) que se interligam formando o micélio vegetativo, que resulta nas colônias filamentosas, podendo ter aspecto algodoado, aveludado ou poeirente. Como exemplo temos o gênero Aspergillus presente na decomposição de alguns alimentos, como frutas, estando também associado a algumas doenças de origem fúngica (micoses ou micotoxicose) em seres humanos.

Colônias da espécie Aspergillus parasiticus presentes no meio de cultura. Fonte: Google imagens, 2020

Agora que compreendemos um pouco sobre as diferenças morfológicas dos fungos, quais são as classificações taxonômicas de interesse médico? . Antes porém é importante frisar que a taxonomia desses organismos é bem dinâmica, tendo as nomeclaturas sido alteradas várias vezes ao longo desses anos pelo Código Internacional de Nomeclaturas Botânicas.

Mas no geral as divisões são: Zygomycota, Basidiomycota, Ascomycota e alguns fungos anamorficos (termo para um tipo de reprodução).

Os fungos pertencentes ao filo Zygomycota possuem as características de não terem esporos móveis, de possuírem em seu micélio vegetativo hifas não septadas (sem a divisão que separa uma célula da outra) ou com poucos septos (divisões físicas entre uma hifa e outra), formar zigospóros por meio da reprodução sexuada ou esporangiósporos contidos no interior de estruturas denominadas esporângios quando estes realizam a reprodução assexuada.

A murcomicose é um exemplo, sendo uma infecção rápida que atinge principalmente pacientes imunocomprometidos. Pode ser adquirida pela inalação de esporos, podendo permanecer nos seios da face ou nos alvéolos gerando manifestações clínicas pulmonares e neurológicas; por meio da ingestão de algum alimento contaminado, provocando distúrbios gastrointestinais ou por meio de inoculação direta, ou seja, quando você sofre uma lesão por algum objeto que esteja contaminado, podendo desenvolver lesões cutâneas ou subcutâneas. Os fungos responsáveis são encontrados no solo e em materia orgânica em decomposição. Os gêneros fúngicos responsáveis por essa infecção incluem: Rhizopus, Mucor, Rhizomucor, Absidia, Mortierella, Saksenaea, Syncephalastrum, Cunninghamella entre outros.

Corte histopatológico monstrando a morfologia celular de espécime característico da murcomicose. Na imagem é possível observar que as hifas (coradas de azul e rosa) quase não possuem septos. Fonte: https://mycology.adelaide.edu.au/mycoses/opportunistic/

Já os fungos pertencentes ao filo Basidiomycota possuem como característica a reprodução sexuada por basidiósporos (formam-se na extremidade de uma hifa fértil denominada basídios) ou a assexuada por meio de conídios (tipo de esporo). Nessa divisão está incluído os cogumelos que nada mais são que estruturas macroscópicas formada por uma complexa de hifas.

A micetismo é um exemplo de intoxicação causada pela ingestão de cogumelos venenosos, tais como a Amanita muscaria, onde os sintomas começam a aparecer cerca de 30 minutos a 2 horas após a ingestão. Os principais sintomas clínicos são: confusão, tontura, distorção espacial, percepção temporal alterada, alucinações, midríase (dilatação das pupilas) entre outros (Michelot, D., Melendez-Howell, L. M.; 2003).

Já a micotoxicose ocorre pela ingestão de alimentos contaminados contendo metabólitos toxicos produzidos por determinados bolores, a exemplo dos Aspergillus parasiticus e A. flavus que produzem uma micotoxina chamada aflatoxina B1 que tem efeito carcinogênico, hepatotóxico e nefrotóxico.

Os fungos pertencentes ao filo Ascomycota incluem a maioria das leveduras e fungos filamentosos de interesse médico. Possuem como característica a reprodução sexuada por meio de ascósporos (esporos presentes no interior dos ascos) e a assexuada por meio de conídios.

Micromorfologia do espécime Histoplasma capsulatum var. capsulatum cultivado em meio de cultura. Fonte: Minoza et. al, 2016

A histoplasmose é um exemplo de micose sistêmica causada por um membro do filo Ascomycota. Tendo como agente etiológico o Histoplasma capsulatum var. capsulatum , a histoplasmose ocorre pela inalação de conídios presentes na natureza (locais que contenham fezes de aves e morcegos, tais como cavernas e galinheiros) que se desenvolvem , já no pulmão, em estruturas leveduriformes e são fagocitadas (engolidas) pelos macrófagos (células de defesa do sistema imunológico) presentes nos alvéolos pulmonares. A partir deste ponto a infecção pode se disseminar para outros orgão via corrente sanguínea. A gravidade das manifestações clínicas dependem do nível de exposição e das condições do hospedeiro.

Presença do Histoplasma capsulatum var. capsulatum no interior de uma célula. Fonte: Minoza et. al, 2016.

Principais fungos patogênicos

Na micologia médica (área de estudo de fungos que causam doenças ao homem ou a animais) os principais espécimes de relevancia clínica são agrupados de acordo com o tipo de infecção que eles podem causar, ou seja, se um determinado fungo que já habita a sua pele naturalmente e por conta de uma baixa imunidade se multiplica, como ocorre na ptiríase verticolor (pano branco) por exemplo, causada pela Malassezia fufur, é chamado de micose superficial. Caso a infecção seja mais profunda ou que acabe se disseminando para outros orgão do corpo elas são classificadas como micoses cutânea, subcutânea e micoses sistêmicas, respectivamente.

Os principais agentes etiológicos causadores de micoses subcutâneas são: o Sporothrix schenkii, Rhinosporidium seeberi, Phialophora verrucosa, Fonsecaea compacta, Cladosporium carrionii, Fonsecaea pedrosoi, Rhinocladiella aquaspersa . São responsáveis por quadro clínicos leves a moderados a depender da espécie e do estado de saúde do paciente.

Micromorfologia do Sporothrix scheckii. Fonte: Google imagens

Já os fungos que causam micoses sistêmicas são os mais graves, podendo deesencadear quadros clínicos extremamente complexos, podendo levar o paciente a óbito muitas vezes. São fungos que vivem em zonas tropicais de clima quente e úmido. Os quatro agentes principais são: Paracoccidioides brasiliensis, Histoplasma capsulatum, Coccidioides immitis e Blastomyces dermatitidis.

Variação morfológica do Paracoccidioides braziliensis quando incubado por um período de até 15 dias. Fonte: Cruz, R. C., et. al; 2012

É importante mencionar também que as manifestações clínicas de infecções sistêmicas podem demorar até 20 anos para se apresentarem, uma vez que o período médio de latência que esses microrganismos podem atingir.

Portanto mesmo atuando de forma harmônica, auxiliando a natureza em diversas esféras ecológicas, podemos concluir que nem todo fungo é benéfico e que isso depende de diversos fatores, como a sua espécie, a nossa condição imunológica, as condições de armazenamento dos alimentos, saber qual tipo de cogumelo é comestível, o quê particularmente não é nada fácil de se distinguir, entre outros.

Bibliografia

Brooks G. F., Carroll K. C., Butel J. S., Morse S. A., Mietzner T. A. Microbiologia médica de Jawetz, Melnick e Adelberg. – 26. ed. – Porto Alegre: AMGH, 2014.

Michelot, D., & Melendez-Howell, L. M. (2003). Amanita muscaria: chemistry, biology, toxicology, and ethnomycology. Mycological research107(2), 131-146.

Minoza, A., Zecler, J., Miossec, C., Quist, D., Pierre-François, S., Deligny, C., … & Desbois, N. (2016). Cas groupés d’histoplasmoses à Histoplasma capsulatum var. capsulatum à la Martinique: description des cas et enquête environnementale. Journal de Mycologie Médicale26(4), 377-384.

Cruz, R. C., Werneck, S. M. C., Oliveira, C. S., Santos, P. C., Soares, B. M., Santos, D. A., & Cisalpino, P. S. (2013). Influence of different media, incubation times, and temperatures for determining the MICs of seven antifungal agents against Paracoccidioides brasiliensis by microdilution. Journal of clinical microbiology51(2), 436-443.

Mezzari A., Fuentefria A. M. Micologia no Laboratório Clínico.- 1. ed. -Barueri, São Paulo: Manole, 2012.

Zaitz C., et. al. Compêndio de Micologia Médica.- 2.ed. – Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017.

Mycology Online. Opportunistic Systemic Mycoses [acesso em: 16/01/2020]. Disponível em: https://mycology.adelaide.edu.au/mycoses/opportunistic/

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.