Como ajudar professores de Física, que não conhecem Física

Estudo evidenciou que treinamento direcionado dá impulso motivacional aos professores e, por consequência, seus alunos.

Introdução

A falta de professores de ensino médio faz com que muitos professores, com pouco ou nenhum treinamento de Física, assumam as salas de aula dessa disciplina, causando estresse adicional e insatisfação no trabalho para esses professores – e uma experiência de aprendizado difícil para seus alunos.

No entanto, novas pesquisas indicam que o desenvolvimento profissional focado no ensino da Física feito por professores em geral – mesmo aqueles que não têm treinamento prévio em aulas teóricas e práticas de Física – pode levar a melhores experiências, tanto para estudantes, como para os próprios professores, além de melhorar a compreensão dos estudantes sobre os conceitos básicos da Física.

Análise, coleta e correlação das evidências

O estudo, publicado em maio de 2019 no Journal of Science Teacher Education [1], acompanhou dois grupos de professores de ciências em estágio avançado durante três anos de treinamento. O programa foi desenvolvido para melhorar a compreensão dos conceitos de Física e ajudá-los a desenvolver estratégias de ensino para ajudar seus alunos a reter melhor o que aprendem sobre a disciplina.

Justina Ogodo, autora do estudo e pesquisadora de pós-doutorado no Departamento de Ensino e Aprendizagem da Universidade Estadual de Ohio, disse que quando lançou esse projeto, lembrou-se de ser uma estudante de física no ensino médio e não se inspirar na educação que recebeu.

“Eu realmente odiava Física, porque meu professor falava com o quadro negro – ele ensinava ao quadro negro”, disse ela. “Imaginei que os alunos estavam tendo a mesma experiência que eu, porque os professores não têm o conhecimento do conteúdo ou as habilidades pedagógicas para ensinar Física”.

Ogodo queria entender como o conhecimento no assunto de um professor poderia afetar a capacidade de um aluno aprender e entender tal conteúdo repassado. Ela seguiu um grupo de professores de Física que participaram de um intenso desenvolvimento profissional em como ensinar física, financiado pela National Science Foundation, depois comparou suas práticas de ensino e resultados dos alunos com os demais professores que não frequentaram os cursos.

Metodologia

Para avaliar os professores, Ogodo usou o instrumento RTOP (do inglês, Reformed Teaching and Observation Protocol), usado como ferramenta de avaliação de professores desde 2000 em alguns estados dos Estados Unidos da América. Ogodo usou o instrumento para medir a eficácia de cada professor em cinco categorias: desenho e implementação de aulas, conteúdo, cultura em sala de aula, interações comunicativas e relacionamento aluno/professor. Ela descobriu que os professores que concluíram o treinamento obtiveram uma pontuação 40% maior do que os professores que não participaram do desenvolvimento profissional.

Antes do treinamento, Ogodo descobriu que a maioria dos professores usava “métodos tradicionais centrados no professor” para ensinar. Esses métodos incluem palestras, atividades de anotações e resolução de problemas – métodos projetados para somente completar o currículo básico-pedagógico e focados no exame do básico-pedagógico, exame esse aplicado para avaliação dos próprios professores nos Estados Unidos da América.

Ogodo observou que os professores que concluíram o curso eram mais propensos a usar técnicas de aprendizado conceitual e o método socrático para ensinar seus alunos – um método orientado pelo ensino e aprendizagem baseados em pesquisas, junto com laboratórios práticos para ajudar os alunos, a ver a realidade e aplicações gerais das teorias que aprenderam.

Resultados

Ogodo descobriu que os professores que não concluíram o treinamento continuaram a recorrer a palestras e laboratórios padronizados. A escassez de professores de Física é grave. Nos Estados Unidos da América, apenas 47% dos professores de física têm formação em Física, segundo a National Science Foundation.

E no Alabama, onde este estudo foi realizado, o problema é pior: apenas 9% dos professores de Física do estado têm diploma de Física ou certificação em ensino da Física.

“Eles são jogados nas salas de aula de Física para ensinar”, disse Ogodo. “Isso significa que eles não estão preparados para ensinar Física, e isso pode ser frustrante para professores e alunos”.

Os resultados podem ser prejudiciais, concluiu Ogodo. Alguns professores do estudo de Ogodo relataram sentir falta de confiança em suas habilidades, especialmente quando ensinavam conceitos de Física que eles não entendiam, e sugeriram que esses sentimentos poderiam levar ao esgotamento dos professores. Ogodo também descobriu que a falta de conhecimento dos professores pode diminuir o interesse dos alunos em Física. Porém, nas salas de aula lideradas por professores que participaram do treinamento intensivo em Física, os professores relataram sentir maior satisfação no ensino de Física e maior confiança em suas habilidades.

Estudos anteriores sobre ciência e educação mostraram que a capacidade dos alunos alcançarem êxito em qualquer disciplina está diretamente relacionada à qualidade e eficácia de seus professores.

Ogodo disse que este estudo mostra que o aumento da formação de professores provavelmente levará a melhores resultados para os alunos e a um maior número de estudantes em busca de futuros nas ciências.

“Uma aluna me disse que gosta de escrever e que queria ser escritora criativa, mas que, depois de fazer essa aula de Física com a professora que havia aprendido essas melhores técnicas, ela quer ser professora de Física”, disse Ogodo. “Esse relato fez o meu dia.”

Esta pesquisa foi financiada pelo projeto Alliance for Physics Excellence, como também financiado pela National Science Foundation através da Universidade do Alabama, Alabama A&M University e Universidade do Alabama em Huntsville.


Referências

[1] J. A. Ogodo, Comparing Advanced Placement Physics Teachers Experiencing Physics-Focused Professional Development. “Taylor & Francis Online,” Informa UK Limited, 01 Maio 2019. [Online]. Available: https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/1046560X.2019.1596720. [Acesso em 16 Novembro 2019].

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