A primeira geração de Mulheres Físicas no Brasil: conheça Neusa Amato

A imagem destacada é do projeto Mulher Faz Ciência, conheça-o

Neusa contribuiu para o avanço da ciência e levou o nome do Brasil a nível mundial. A cientista é um exemplo de pessoa modesta e simples, que nunca se vangloriou por suas conquistas, mas sim sempre destacava que elas eram frutos de um trabalho coletivo. Aqui faremos uma breve apresentação de sua trajetória científica, buscando mostrar que a ciência também é composta por nomes de grandes cientistas brasileiras.

Neusa Amato 1926-2015

O despertar do interesse pela Física e o incentivo à profissão

Neusa Amato (1926-2015) manifestou seu interesse pela área de exatas ainda no colegial, sempre destacando que não tinha aptidões para outras áreas, mas que se encontrava nas matérias de matemática e física. À vista disso sabendo de seu interesse singular, seu professor de Física Plínio Sussekind, a incentivou e a ajudou em seus estudos para o vestibular, visto que ela não possuía recursos financeiros na época.

Assim como outras cientistas, Neusa, nascida no Rio de Janeiro, na cidade de Campos dos Goytacazes, não tinha incentivos dos seus pais e nem tantas oportunidades na Universidade, uma vez que no seu tempo mulheres mal ingressavam no ensino superior, e quando entravam escolhiam cursos considerados “mais femininos” como Literatura por exemplo. Mesmo assim apesar de o incentivo partir unicamente de seu professor, Neusa persistiu em seu sonho de entrar na universidade, para posteriormente se dedicar e conseguir seu tão sonhado lugar como pesquisadora.

O trajeto até o CBPF

Após muita dedicação em seus estudos, Amato passou no vestibular, bacharelando-se primeiramente em Física em 1945 aos 19 anos, e obtendo após dois anos seu diploma como licenciada na mesma área. Depois do término de suas atividades acadêmicas como aluna iniciou no magistério, trabalhando em colégios da região para ajudar seus pais que passavam por dificuldades.

Porém como destacado desde o princípio, seu maior desejo profissional era trabalhar como pesquisadora.  E posteriormente ao conhecer a física Elisa Pessoa, esta apresentou a Neusa o jovem professor César Lattes que sabendo de seu destaque, integridade e dedicação aos estudos, a convidou para trabalhar inicialmente como pesquisadora voluntária, no recém-criado CBPF (Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas). Sem hesitar Amato topou começar a trilhar sua carreira acadêmica.

Marcos no desenvolvimento da ciência e representatividade feminina brasileira

Agora como pesquisadora, a fluminense iniciou seus trabalhos voluntários colaborando com a professora Elisa Pessoa, como era voluntária no centro, não recebia remuneração e por isso continuava a lecionar nas escolas. Porém, como o seu sonho era muito maior, se dividia entre a pesquisa e o magistério, fazendo ambas as tarefas com qualidade.

A colaboração com Elisa se deu de muitas vitórias e desenvolvimento para ciência, a parceria entre as duas cientistas durou por vários anos, através de suas contribuições científicas estas levaram o nome do Brasil e do recém-fundado Centro a conhecimento mundial, assim como foram às pioneiras no ramo de pesquisa no Brasil, quebrando muitas barreiras discriminatórias, destacando assim a representatividade feminina brasileira dentro da ciência. Apesar disso em entrevista concedida pela cientista, Amato ressalta que tudo que contribuía era sempre colocado em debate por ser mulher, onde duvidavam do seu potencial (que cá entre nós era muito grande né? 😀 ).

Por desenvolver pesquisas de grande competência para o CBPF, em 1951 deixou de ser apenas voluntária e recebeu admissão para remuneração e maior destaque, deixando de trabalhar em colégios e se dedicando integralmente ao Centro de Pesquisas, onde trabalhou até 1996, ano de sua aposentadoria.

Conquistas científicas

Em 1950, Neusa e Elisa assinaram o primeiro trabalho que sai com o nome do CBPF, apresentado como: “Sobre a desintegração do méson pesado positivo’’. Sendo Publicado consecutivamente nos Anais da ABC (Academia Brasileira de Ciências) no mesmo ano.

O artigo de emulsões nucleares teve grande importância e interesse mundial, por ser tratar de um assunto atual na área científica na época, levando os nomes das cientistas, o país e o instituto a repercussão e divulgação internacional.

Com todo o êxito no estudo desenvolvido as duas pesquisadoras criaram a Divisão de Emulsões nucleares do CBPF, com o objetivo de treinar pessoas capacitadas para análises referentes às interações de partículas, voltadas ao ramo respectivamente de emulsões nucleares. Transformando a Divisão numa instituição renomada pelos trabalhos apresentados.

Destaca-se também que Amato foi responsável pela colaboração Brasil-Japão em raios cósmicos relacionados às emulsões nucleares.  Contribuindo não só a nível nacional como observado, mas também a nível mundial durante toda a sua contribuição ao CBPF. Quando perguntada sobre seu sucesso profissional Amato ressaltava que o sucesso vinha de um trabalho coletivo.

Do instituto ao lar

Em uma de suas viagens para fora do país, conheceu seu futuro marido Gaetano e com ele teve dois filhos. Infelizmente em 1978, Gaetano veio a falecer e deixou a pesquisadora com toda a carga familiar. Porém, segundo o livro Mulheres na Física, mesmo sozinha Neusa conseguiu se desdobrar no instituto e no lar, desempenhando novamente ambas as tarefas com dedicação e competência.

imagem: CBPF

Momento reflexão

E chega ao final uma breve história sobre a cientista Neusa Amato, espero que tenham gostado e tirado a essência do texto, que mostra que desde cedo Amato poderia desistir, por todas as dificuldades enfrentadas, como a falta de apoio dos pais, falta de dinheiro, o preconceito na Universidade, dentro da carreira acadêmica e a decisão entre a vida pessoal ou acadêmica. Todas as barreiras ela ultrapassou, se dedicando e se empenhando tanto em sua vida pessoal como a profissional. Você que tem um sonho nunca desista por mais que se tenham muitas barreiras, lá na frente todo o suor da caminhada será recompensado. Acredite no seu potencial, só depende de você!


Conheça mais em:

Livro- Mulheres na Física: Casos históricos, Panorama e Perspectivas.

Entrevista- Neusa Amato (link: https://youtu.be/WwKHmVenFik)


Referências:

BARBOSA, M.; SAITOVITCH, E.; FUNCHAL,  Z. Mulheres na Física: Casos históricos, Panorama e Perspectivas. 1. Ed. São Paulo: Livraria da Física. 2015.

http://neusaamato.blogspot.com/p/vida-e-obra-de-neusa-amato.html

Comentários

6 comentários em “A primeira geração de Mulheres Físicas no Brasil: conheça Neusa Amato”
  1. Eduardo Viana disse:

    Mais uma célebre pesquisadora da ciência brasileira!

  2. Auréa disse:

    Parabéns pela iniciativa! Contudo, gostaria de fazer uma sugestão no texto. A pesquisadora, que colaborava com a Profa. Amato, era Eliza Frota Pessoa e não, Eliza Motta.

    1. lia disse:

      Olá! Obrigada pela contribuição, é muito importante para o aperfeiçoamento do texto. Quando citado a física Elisa Frota Pessoa, foi apresentada como Elisa Pessoa, para não haver realmente equívocos. Lhe agradeço pela colaboração pois enriquece de fato o artigo, abraços :)!

  3. Sandra Amato disse:

    Olá Thalia, sou Sandra Amato, filha da profa. Neusa Amato, muito bacana o seu texto, tenho muito orgulho de ser filha dela, ela foi um grande exemplo pra mim e pro meu irmão. Realmente, a mamãe saiu enfrentando todos os obstáculos, do jeitinho calmo dela, ela sempre ia abrindo caminho, conseguia fazer o que queria e defendia o que acreditava. Enfrentou várias dificuldades, mas me permita fazer só uma correção: segundo ela, no CBPF ela nunca sofreu nenhum tipo de preconceito por ser mulher, pelo contrário, ela era muito respeitada, principalmente por Lattes, que a respeitava de todas as formas e acreditava cegamente nos seus resultados. Só gostaria ainda de ver uma sala com seu nome no CBPF pra acreditar que isso era realmente verdade…

    1. lia disse:

      Nossa fico muito feliz de o artigo ter chegado até você! Muito obrigada pela contribuição, tenho muita admiração pela Neusa Amato, acredito que é importante mostrar cientistas brasileiras para incentivar gerações, assim como ela me incentivou na área. Acredito que o preconceito está inserido ainda nos círculos de interação infelizmente. Quando fui pesquisar sobre sua história, realmente vi o quanto ela era admirada dentro do Centro e de fato ela deve ser homenageada, ter o reconhecimento que tanto merece. Abraços 🙂

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