A Cosmologia Medieval ou Os Medievais Acreditavam que a Terra Era Plana?

Uma visada sob o olhar dos homens e mulheres do longo milênio medieval para os céus estrelados

Vivemos uma época onde, pelos mais diversos motivos, a comunicação científica tem se provado falha, nas mais diversas maneiras, nas mais diversas ciências. Em tempos de pós-verdade e negacionismo científico surge um terreno fértil para o desconhecimento, para o charlatanismo, e pessoas má intencionadas manipulando, geralmente se valendo de uma retórica violenta e carisma inegável, os afetos e os saberes, consequentemente adquirindo tanto capital social quanto econômico. Ao longo da história da civilização, principalmente em sua porção ocidental, uma série de verdadeiros pioneiros dos saberes foram ao mesmo tempo polemistas, porém nem todo aquele que provoca polêmica é um pioneiro do saber.

Nos últimos tempos vimos o surgimento e a proliferação das mais absurdas ideias, indo desde “teorias” apontando como consequência da vacinação a propagação do autismo, ou a implantação de um chip governamental controlador de toda a sua vida, até que ondas eletromagnéticas estariam controlando o nosso cérebro – que medo é esse de se perder autonomia de seus pensamentos e ações, não é mesmo?

Nesse caldo surgiu e proliferou a ideia, mais do que absurda, de que o nosso planeta, a Terra, não seria um geóide, uma esfera, para simplificar, e sim um plano, uma espécie de panqueca, ou pizza, desafiando todos modelos físicos postos, numa manobra que geralmente os ideólogos desse absurdo apontam que Einstein e Newton fizeram, ou seja, destruir e refundar uma nova física para que suas ideias coubessem num modelo teórico. Ou seja, para confirmar a sua narrativa, usada aqui nos seus significados mais rasteiros, eles tentam negar todo modelo físico existente, apontando seus eventuais erros e desvios? Não! Dizendo que essa física é fruto de uma megaconspiração que busca obliterar da verdade as pessoas, e cientistas são vistos como partícipes dessa conspiração por serem… gênios malvados, verdadeiros vilões de filmes hollywoodianos.

Muitos desses crentes no “modelo” da Terra plana apontam como evidência, para além da materialidade, o fato de que textos sacralizados como a Bíblia definem a Terra como uma bolacha maria. E, em alguns casos, apontam que os medievais acreditavam no modelo ptolomaico da cosmologia, e que esse modelo era razoavelmente suficiente para responder todas as questões de que forma era o universo e de como os astros se comportavam.

Cabe várias aspas em quem se propõe a tal ensejo, vamos listar algumas: os medievais tinham uma outra interpretação sobre a Bíblia, inclusive, entre os populares, ela era praticamente desconhecida e apenas interiorizada pela oralidade e pelo imago – conceito latino-medieval que pode ser, mais ou menos, traduzido como imagem, porém ela precisava carregar em si uma função pedagógica, ou seja, ensinar ou catequizar seu público, esse conceito é muito usado, entre outras formas, nas iluminuras e nas catedrais góticas.

E para além de uma outra interpretação da Bíblia, os medievais tinham um outro conceito de ciência e de cosmologia, é preciso nos lembrar que o longo milênio do Ocidente medieval viu um recrudescimento da cultura letrada, e mesmo da leitura, muitas vezes vista apenas como um instrumento para a oralidade, não obrigando os pensadores a decorarem seus texto por completo, é somente no século XII que temos o surgimento de um leitura silenciosa e interiorizada. Durante o período entre a queda de Roma e a tomada de Constantinopla pelos otomanos não havia sido formatado o cálculo, a astronomia, pelo menos não nos termos que entendemos hoje, o método científico, apesar dos esforços de um Francis Bacon, entre outros campos do conhecimento. Ciência para o homem medieval era visto mais como algo no campo da retórica e do simbolismo do que que parte da observação e entendimento da natureza.

Não há evidências, sejam imagéticas ou textuais, que comprovem que na Europa ocidental os intelectuais, pensadores se você preferir, acreditavam numa modelo plano para o nosso planetinha, a cartografia dos navegadores genoveses do século XIV, por exemplo, propunham um modelo T para o mundo, onde ele seria delimitado pela Europa, norte da África, Oriente Médio, parte da Índia, isso tendo no centro o Mediterrâneo, o Nilo dividindo o Egito da Palestina, e um enorme oceano circular. Os bestiários de Toledo ou Sevilha que descrevem serpentes e monstros marinhos no que hoje chamamos de Atlântico é um exemplo de como se dava essa outra forma de se interpretar a cosmologia: para os clérigos medievais a Terra detinha um Paraíso e um Inferno, o Purgatório é uma invenção do século XI, nesse plano de existência, e qualquer “abismo” no mar seria uma entrada para esse outro locus espiritual/material.

Na prática, não há um modelo cosmológico de como a Idade Média enxergava o universo, o que havia era um amálgama entre a observação do cosmos, um misto de astronomia e astrologia, e a teologia cristã aliada a uma hermenêutica bíblica, chamada de Gramática, a partir do século XII na Universidade de Paris. A ordenação das estrelas, o movimento das estrelas, a posição da Terra, e diversos outros fatores, eram um misto de observação com teologia e misticismo, uma precisava corroborar a outra, mesmo que em diversas passagens bíblicas o modelo cosmológico mude de formatação. No fundo, os medievais não se importavam com o formato da Terra, eles se importavam em obter boas colheitas, salvar suas almas no além-vida e tentar sobreviver, para eles não havia a necessidade de se definir categoricamente se a cosmologia tinha um modelo A ou B, e sim se esse modelo se encaixava ou não na teologia cristã e na gramática bíblica.

Porém é improvável que grandes letrados como Dante, Pedro Abelardo, são Tomás, entre outros, que tiveram contato com as obras de Aristóteles, aliás a dita Idade Média pode ser chamado como o renascimento aristotélico, acreditassem numa sandice como é o modelo proposto pela Terra plana.

Precisamos nos perguntar por que então usar a Idade Média como justificativa para a Terra plana? Há diversas respostas para isso, primeiro, como bem nos lembra Georges Duby no prefácio de Guerreiros e Camponeses, “se conhece muito mais sobre a Grécia antiga do que sobre a Idade Média”, e segundo por um deslocamento dos documentos e objetos históricos de seu contexto, ou seja, se pega as imagens de um suposto modelo T e se crava prontamente: terraplanismo medieval!, ignorando por completo o contexto intelectual e social no qual esse objeto fora criado e produzido. Ao usar a Idade Média como possível justificativa para a adoção de um modelo terraplanista, ou ptolomaico, ou geocêntrico, é uma dupla desonestidade, tanto do ponto de vista geofísico e cosmológico quanto histórico, pois não há evidência alguma em nenhum desses campos desse modelo absurdo para a forma do nosso querido, e tão maltratado, planeta.

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