O bom senso em transmitir informação

Um relato pessoal pela minha experiência em divulgação científica, online e presencial.

Certa vez eu estava a conversar com um jornalista do meu instituto. Ele tem tanto formação científica como a do jornalismo. Trabalhou em importantes revistas e jornais de ciências e hoje trabalha no setor de comunicação do CBPF. Nessa conversa eu tentava ver com ele meios de integrar os alunos do CBPF em divulgação científica voluntária pelas escolas. Ele, na sua experiência de muitos anos, me disse a seguinte frase que até hoje guardo e motiva meu texto e argumentos aqui: “divulgação científica é sobre o quanto você consegue e precisa simplificar uma informação sem tirar a essência dela. Algo nesse contexto, palavras exatas fogem na memória.

Hoje eu estava vendo mensagens em redes sociais sobre a recente vitória do Flamengo na Libertadores e havia uma postagem sobre o resultado do rádio chegar primeiro que o da tv. Há muito por trás disso. Sistemas de distribuição, quantidade de dados, multi-câmeras, e muito mais que eu certamente não sei. Talvez até eu pudesse ter dado uma explicação melhor nos poucos caracteres digitados no celular, mas me sinto satisfeito com a questão. Mas fui criticado.

Havia um comentário de alguém suficientemente idoso perguntando sobre o motivo de chegar primeiro no rádio. O pensamento que ele colocou foi, se o rádio é som e a tv é luz, como pode chegar primeiro no rádio se a velocidade da luz é muito maior que a do som ? Uma dúvida digna da frase “You are not even wrong”, sem qualquer inteção ofensiva. Estava no celular, pensei deixar passar mas resolvi que seria melhor esclarecer o grande equívoco. A transmissão de sinal para o um aparelho de rádio não é feito por som, afinal, essa é só a forma final do sinal, também propagado por ondas eletromagnéticas.

Então respondi explicando brevemente que o sinal do rádio viaja na verdade à velocidade da luz também, dado isso ele chega muito rápido. Mas daí havia um problema, a comparação com a tv. E isso por si é uma complicação por si só. Existe atraso de sinal de acordo com os tipos de transmissão de tv. Sinal analógico, sinal digital, sinal de tv paga por satélite, tv a cabo. Cada um possui suas peculiaridades. Resolvi ignorar a complexidade e focar nessa parte ao caso mais popular hoje em dia da “tv a cabo”, ou também levando em conta processos de cabo mesmo numa transmissão não via rádio. Na transmissão de tv há muitos intermediários, a transmissão do estádio possui diversos caminhos e meios possíveis, inclusive o de transmissão via cabo por meio da empresa que presta esse serviço. Enquanto o rádio possui transmissão muito menos variante e é um processo de reflexão quase que contínuo, senão contínuo. Preferi admitir a “tv a cabo” onde realmente a transmissão, ao menos parcial, via fio é mais lenta, fisicamente, que a transmissão eletromagnética, afinal, eletrons num fio são bem mais lentos sim.

Simplifiquei ao máximo para caber nos poucos caracteres disponíveis numa única resposta. A informação que eu passei, comparando rádio com tv a cabo está completa ? Não está, talvez bem longe de estar. Mas o objetivo inicial era outro, lidar com a grave questão de que a pessoa originalmente pensava que o sinal de rádio vinha por meio de som e a tv por meio de luz. Um buraco muito mais embaixo. Uma resposta mais completa seria algo parecido com o que fiz nos parágrafos anteriores, mas a pergunta que ficaria era se no fim eu conseguiria transmitir o núcleo principal de informação básica que a pessoa precisava. Adiantaria passar a informação completa se o objeto alvo dela não a consegue compreender na sua base ?

Isso na verdade é a escola, seja em física, biologia ou história. “Despreze” é um termo muito recorrente nas questão, não a toa. Biologia simplifica os processos corporais muito mais específicos nas suas moléculas e afins. História, que em muitos casos até me incomoda, simplifica nuances que impactam percepções inteiras. D. Pedro I desfez a Assembleia Constituinte brasileira, o fato escolar, mas e o motivo ? Não é falado no ensino compactado, e não comentarei aqui por não ser o foco do texto.

Talvez eu esteja com a conduta errada mas é a que julgo coerente com a realidade das interações em redes sociais entre desconhecidos em temas complicados demais para esse espaço limitado.

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