O ensino de física no Brasil: Uma reflexão de tirar o sono!

Ontem (10/11), juntei-me a mais de 3,7 milhões de candidatos e realizei a prova do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM).

Após passar as cinco horas sentado na cadeira resolvendo as 90 questões, cheguei exausto em casa e, com o intuito de dormir, as 21:00 deitei na cama. Mas fiquei inquieto, e acabei ficando acordado, refletindo sobre a prova: especialmente a de FÍSICA.

Para aqueles que não tiveram a oportunidade de ver e resolver essas questões, os assuntos cobrados ali foram dos mais diversos e sempre recorrentes no exame: Óptica, Cinemática, Eletricidade, Dinâmica, Calorimetria e Eletromagnetismo.

Estes dois últimos temas, cada qual referente a uma questão, foram, ao meu ver, os mais complexos de toda a prova.

A questão 112 da Prova Cinza tratava do fluxo de condução térmica entre dois recipientes e pedia do aluno o uso formal da Lei de Fourier.

Já a questão 126, ainda da prova Cinza, pedia que o aluno determinasse “a massa do íon medida por esse dispositivo [espectrômetro de massa]” em uma trajetória helicoidal.

ABORDAGENS ESTAS QUE JAMAIS APARECERAM NO ENEM!

Como um entusiasta da Física, eu achei incrível esses assuntos aparecerem desta maneira na prova.

Realmente, fiquei maravilhado com isso. Porém, pensando numa ótica generalista, que deve englobar todos os estudantes do Ensino Médio do país (sejam de escolas públicas ou privadas), vi que existem problemas ao se cobrar essas questões no Brasil.

Será que a maioria dos candidatos presentes naquele domingo saberiam de cor a fórmula da Lei de Fourier? E saberiam que, quando uma partícula carregada eletricamente é solta em um campo magnético de forma que o ângulo entre o vetor velocidade e o campo admita valores diferentes de 0 e 90 graus, sua massa pode ser determinada relacionando velocidade angular, forças centrípeta e eletromagnética? Pela complexidade e pelo nível do ensino, creio que não!

Bem, não é de hoje que a Física é um “bicho de sete cabeças” para os alunos. Alguns a odeiam e põem a culpa na Matemática – como se para entender os conceitos físicos fossem necessários números e equações. Outros, admitem não se interessar pela aula por causa da “decoreba” de propriedades e das fórmulas. Lembro-me de um ano do meu Ensino Médio que na sala (com cerca de 130 pessoas) eu podia contar nos dedos de minhas mãos quantos se interessavam pela aula. E vi o desespero e o esforço de muito professores para conquistar mais adeptos à sua área. Poucos professores que tive simplesmente eram indiferentes quanto a isso e continuavam ministrando, com o pincel na mão e o quadro cheio de letras e números sem significado.

Se a aula é monótona com a lousa repleta de fórmulas abstratas e, assim, intangíveis aos estudantes, não é de se espantar que muitos desistirão de aprendê-la. É esse raciocínio o qual contribui para o declínio do ensino de Física no Brasil. Os professores e as escolas – com raras exceções – são, de certa forma, culpados por isso (por favor, não me entenda mal). A forma de dar as aulas de Física não seguiu a evolução do ensino: a pedagogia se modificou com novas formas de aprendizado; a infraestrutura das escolas também mudou; da mesma forma como a qualificação dos profissionais; Mas, a rigidez tradicional da Física (àquela na qual o professor fica uma hora falando dos conteúdos, escrevendo diretamente no quadro e no final do semestre cobra na prova meras aplicações de fórmulas) ainda permanece latente nos dias de hoje. Alguns professores sequer usam meios tecnológicos, como os multimídias e os laboratórios de Ciências – o que seriam maneiras de trazer o aluno mais próximo da teoria dos livros didáticos.

Já imaginou aprender hidrostática “brincando” com vasos comunicantes? Compreender o Efeito Joule com uma esponja de aço? Ou comparar os calores específicos da areia e da água com uma bexiga de aniversário e uma vela? Isso e muito mais pode ser visto na internet. Contudo, infelizmente ainda é raro encontrar esses conteúdos no dia a dia da sala de aula (e se você é professor da área, há de convir comigo que esses vídeos abaixo fariam a aula ser mais atrativa e proveitosa para o aprendizado de seus alunos).

Aqui seguem vídeos dos experimentos citados acima

O próprio Richard Feynman, físico premiado com o Nobel de 1965, em seu livro “Deve ser brincadeira, Sr.Feynman!”, citou um episódio de quando lecionou aulas no Rio de Janeiro e mostrou-se preocupado com o ensino da Física por aqui. Em sua obra ele analisou o porquê de o brasileiro ter acesso ao conteúdo mais cedo do que outros alunos do mundo, e mesmo assim a Física nacional ser defasada, com altos níveis de desinteresse e de temores.

“[…] Então, eu ergui o livro de física elementar que eles estavam usando. ‘Não são mencionados resultados experimentais em lugar algum desse livro, exceto em um lugar onde há uma bola descendo o plano inclinado, onde ele diz a distância que a bola percorreu em um segundo, dois segundos, três segundos e assim por diante.'”

“‘Descobri mais uma coisa’, eu continuei. ‘Ao folhear o livro aleatoriamente e ler uma sentença de uma página, posso mostrar qual é o problema – como não ciência, mas memorização, em todos os casos’.[…]”

(trechos tirados do livro do Feynman mencionado acima)

Nos dois fragmentos acima, nota-se que mesmo dentro da academia, existem “decorebas” de fórmula e pouquíssimos experimentos. E alguns professores, ao saírem da faculdade e entrarem nas salas de aulas, permanecem com essa mentalidade de poucas experiências e muitas fórmulas, afetando em muito a qualidade da Física no Brasil.

Retomo agora às questões do Enem desse ano… Qual a relação entre elas e o ensino nacional?

Questões como essas trazem apenas duas certezas: poucas pessoas acertaram (com exceções dos chutes) e, consequentemente, muitos problemas no ensino da Física, nesse caso, especialmente no Ensino Médio. Caso os professores das diferentes escolas espalhadas pelo país trabalhassem esses e outros assuntos “mais complexos” de forma a tornar clara a compreensão, com certeza não teria reverberações negativas no sentido de dizerem que “essa questão é impossível” ou que “meu professor nunca me falou disso”.

Pelo fato de o Enem ser uma prova nacional, ela deve nivelar o conhecimento dos estudantes ao longo do ano. Ao cobrar questões em que pouquíssimos candidatos sabem fazer, isso demonstra que há uma barreira epistemológica, na qual está relacionada ao seu ensino. Dessa forma, ou melhora-se o nível de aprendizado da Física no país, ou não cobre assuntos que nem todos viram no Ensino Médio. Entre os dois caminhos, o melhor é melhorar o nível do aprendizado, pois, assim, além de qualificar significativamente a educação brasileira, faz com que muitos se interessem mais pelo conteúdo – e quem sabe façam a graduação na área.

Infelizmente, ainda existem muitos caminhos a serem trilhados a respeito da física no país. Só para deixar claro que não estou criticando a banca organizadora da prova, nem mesmo o governo atual. Apenas fiz uma análise da qualidade educacional de Física no Brasil, e como isso se reflete no cotidiano dos estudantes.

Fica aqui minha reflexão do assunto! O que podemos fazer para melhorar isso? Eu respondo: aulas mais didáticas, com experimentos e sem “decorebas”.

Somente após chegar a essa conclusão, depois de fazer toda essa análise em minha mente, foi que finalmente, as 00:00, consegui dormir.

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