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Unificação ou Não ? Eis a questão

Inspirado no vídeo da Bit de Prosa com a Matemaníaca resolvi abordar um tema que eu nem imaginava estar em voga brasil afora. Unificações. Recorre que o governo tem uma tendência história em unificar coisas, unificar o ensino básico, unificar o vestibular, unificar a identidade, unificar o termo biscoito. Porém todos são dignos de debate, exceto o último.

Os cursos de ciências exatas, foco em questão aqui, possuem no geral o que chamamos de ciclo básico. Onde são ministradas as matérias de Cálculo (I, II, III…), Física Básica (I, II, III,…), Álgebra Linear, e por aí vai, mas também não muito além disso. E uma das ideias, com justificativas de economizar e nivelar o ensino seria a de misturar todas as turmas de exatas indiscriminadamente, visto que todas possuem a mesma matéria. Assim, em vez de haver uma turma de Cálculo para engenheiros com 30 alunos e um para geofísicos com 15, teríamos talvez uma turma de 45, ou mesmo assim duas com 22,5. Sim um aluno fica flutuante entre turmas nesse meu exemplo. Mas eu tenho uma boa notícia. Eu venho do futuro! Acontece que onde me formei, na UFF, muito do currículo básico de exatas já é unificado, e já tenho, e sempre tive, críticas bem sólidas sobre todo esse sistema. Vamos lá.

Primeiro de tudo, universidades como a UFRJ já possuem alguns tipos de cursos que são de ciclo básico para depois escolherem o curso de exatas a seguir. Em casos como o das escolas militares de engenharia a escolha do tipo de engenharia a seguir historicamente é feito de acordo com o ranking de notas de alunos. Fora esses exemplos bem mais específicos tenho o meu de compartilhamento de várias matérias com engenheiros e afins. Bem, eu a experiência terrível, exceto pela questão das amizades que eu fiz entre os vários amigos engenheiros que hoje tenho.

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O modo de ver a física e matemática para um engenheiro é muito diferente para um físico e para um matemático. Então, em exemplos práticos: as físicas básicas eram aplicadas demais, abordando pouca teoria mais profunda (inclusive é contestado se faz sentido ter físicas básicas na física… pois depois revemos tudo na forma real, é como fazer a graduação em gambiarra e depois da forma direita) pois como a maioria das pessoas eram de engenharia então essa era a forma mais interessante para a turma. Se para um engenheiro o livro do Halliday era interessante para físicos nem tanto, para nós o Moysés seria melhor, ainda com pitadas do Feynman e suas eternas discussões acerca da física como ciência, algo extremamente importante para a formação do físico. No cálculo eles cortaram um pouco a unificação, matemáticos e engenheiros não compartilham mesmas aulas, embora físicos compartilhem com todos. Quanto a fazer cálculo com engenheiros, está ok, mas matemáticos precisam de um aprofundamento teórico muito grande, que acaba sendo as vezes desnecessário para um físico e muito mais para os engenheiros, que só querem saber da aplicação das ferramentas. Assim como matérias de equações diferenciais, onde foram dadas com viés matemático, para físicos e engenheiros. Nunca usei algo dessa matéria praticamente, infelizmente, embora tenha ido muito bem. Em aplicações mais específicas talvez, tão específicas que mereciam na verdade ser um curso optativo em si ou um estudo a ser feito por necessidade de alguma iniciação científica.

Uma matéria específica, o pior caso, feita para ensinar métodos matemáticos para o trabalho como profissional, coisas como Transformação de Fourier e cálculo em números complexos tive junto com engenheiros e o professor era um engenheiro. Aula excelente, mas com um viés totalmente distorcido para a minoria de físicos, até mesmo nos termos, pois foram usados termos mais técnicos de engenharia (elétrica e de telecomunicações). Percebi isso depois quando um professor de Mecânica Quântica foi revisar o conteúdo e percebi coisas que não havia percebido antes, sendo o mesmo conteúdo. Inclusive, há muito tempo a matéria era chamada Métodos Matemáticos para a Física, e era dado por um físico, para físicos. E isso é importante. O tipo de funções e problemas que encontraremos na física são de um tipo, enquanto na engenharia de outro. É interessante na física estarmos versados nas equações padrão, como a do oscilador harmônico, ou uma equação diferencial como a de Schroedinger. Para um matemático todas são interessantes. Para engenheiros basta saber transformação de Fourier e está tudo feito.

É complexo… pois a interação é boa, a interdisciplinaridade também, mas percebi muitos desses buracos ao longo da graduação. Inclusive isso faz muitos físicos acharem a graduação chata pelo começo e desistirem. E é um eterno debate sobre o limite da pluralidade. Na graduação os físicos precisam fazer uma matéria de química em nome da pluralidade. Na pós graduação há casos em ser necessário fazer trabalhos específicos de áreas fora da sua pesquisa. E aí fica a pergunta: não é permitido se especializar ? Se até mesmo no doutorado é esperado um estudo fora do seu campo. Acredito que é importante incentivar isso tudo, mas talvez de algum modo sem contar uma obrigação ou desvalorização do ensino.

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