Bolsonaro, Falso Profeta da Segurança Nacional

Atualmente no Brasil há uma corrente muito grande de óbvio descontentamento com a criminalidade. Nesse cenário político extremamente diverso e inconstante surge Bolsonaro, deputado há muitos mandatos e candidato à presidência. Ele não atrai eleitores por motivações econômicas (pois não as tem) não atrai por projetos educacionais (pois não os tem) e por nada que não seja, fora alguns detalhes ideológico-religiosos, a promessa do combate à corrupção, na melhor forma Jânio Quadros, e à criminalidade. Mas, sendo eu um morador da região do Grande Rio, tenho algumas coisas a apontar sobre a simplicidade dos discursos da família Bolsonaro sobre segurança pública. Não preciso aqui falar sobre legalização ou não das drogas ou qualquer outra coisa, como a medida de longo prazo de investir em educação e gerar empregos, posso facilmente pular esse argumento e seguir para outros pontos mais tangíveis.

Combate ao Crime

Essa primeira e principal questão justamente é a que parece ser a primeira em que o candidato falharia em executar. Parece prepotência rebater o assunto de segurança para alguém com formação de oficial militar pela Academia Militar das Agulhas Negras, lugar que tentei por dois anos ingressar, mas os fatos são fatos.

Existe o discurso gigantesco sobre armar melhor a polícia, treinar melhor a polícia e dar mais liberdade para “matar vagabundo” ou argumentos similares. O argumento de melhorias é totalmente real, em termos de qualidade principalmente. O segundo argumento não faz sentido pois a Polícia Militar do Rio de Janeiro já possui altos índices de mortalidade e de nada isso tem melhorado na segurança do estado. O recrutamento criminoso é muito maior do que o da polícia, e quando o recrutamento da polícia tenta atingir o mesmo nível se perde a qualidade que faz da polícia ser a polícia, virando apenas uma milícia do Estado. Além disso, é melhorar armamentos até que ponto ? Criminosos já possuem armamento antiaéreo!

O Governador Sérgio Cabral há alguns anos deu um espetáculo visual para a população, com a invasão dos piores morros dominados pela criminalidade, fez exatamente o que Bolsonaro prega. O que isso mudou ? Bem, agora o crime está mais espalhado ainda pelo estado do Rio de Janeiro. Antes concentrado do Rio e na região da Baixada Fluminense agora atravessou a Baía de Guanabara está dominando São Gonçalo, Niterói e até mesmo a turística Região dos Lagos. Um desastre monumental, criminosos fugiram do Rio e formaram base nas cidades adjacentes e os que ficaram posteriormente voltaram a ter seu poder, devido ao evidente modelo falido, como estou apresentando aqui.

Mas ainda assim não podemos esperar que a melhoria na estrutura da polícia possa causar uma grande diferença. Uma guerra é vencida com estratégia. E em poucas guerras colocar soldados para morrer em linha de frente serviu para algo.

ANGLETERRE - GUERRE - LEURRE
Tanque inflável Aliado

O Dia-D não foi vitorioso por colocarem soldados para desembarcar desenfreadamente em campo inimigo, mas sim por terem infiltrado paraquedistas nos dias anteriores para desabilitar armamentos, e também pela estratégia surreal de enganar aviões espiões nazistas com tanques e tropas infláveis na tentativa de fazer Hitler pensar que a invasão da Europa se daria em outro lugar, levando o Fuher a fortalecer o lugar errado. Estratégia. E é o que falta. Eu pergunto: os criminosos produzem munição as favelas ? Os criminosos produzem as drogas na favela ? Eles produzem armas nas favelas ? Respondo sem medo que não. O que realmente falta é Inteligência para apreender os armamentos e munições antes de chegarem no seu objetivo. Ter uma polícia de fronteira em pontos sensíveis. Investigar o material que chega pelas regiões portuárias, como feito pelo deputado Marcelo Freixo. Combater o crime de forma inteligente que não seja colocando policiais militares para morrer enquanto não se impede o abastecimento dos criminosos. O Bolsonaro, ao não ter esse discurso, ou é muito ingênuo ou desonesto com seus eleitores, e sinceramente não sei qual opção é pior.

Armar a população ? Pode ser, mas o último civil armado que vi estava apontando uma arma para o motorista do meu ônibus numa briga de trânsito besta. Boa sorte.

Penalidades

Apesar da nosso sistema carcerário ser idealizado para reabilitação e reintegração, sabemos que está totalmente errado, não a toa quase todos que vão presos voltam para a vida do crime e piores. O grande pensamento indignado das pessoas, que possuem uma causa justa, é a de que como o sistema não dá certo é preciso penas mais mais severas, pena de morte, diminuição da maioridade, e até mesmo tortura. Boa parte embasada nos pensamentos simples como os de Bolsonaro, que tem uma atuação mais emocional do que lógica e real.

Há 2500 anos atrás, se o registro está valendo, Sun Tzu já dizia n’A Arte da Guerra como tratar um prisioneiro “Trata bem os prisioneiros, alimenta-os como se fossem teus

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Sun Tzu ainda tem algo a ensinar

próprios soldados. Na medida do possível, faz com que se sintam melhor sob tua égide do que em seu próprio campo, ou mesmo em sua pátria.”. Em tempos bem mais violentos e bárbaros do que os atuais. Nem existia a ideia de polícia.

Gostaria que todos pensassem que a reabilitação de prisioneiros é o ideal, a segunda chance, mas sei que é difícil acreditar nela no Brasil atual e que não é assim que a maioria pensa. Quando você idealiza que uma punição maior, pena maior, mais dolorosa vai resolver, a menos que você pretenda que o criminoso saia transtornado mentalmente sob métodos de tortura dignos de “1984”, essa lógica não funciona. A grande falha é que você pensa como “cidadão de bem” que tem como maior temor ser preso, perder emprego, família ou sofrer uma pena de morte, ou estar em meio a outros criminosos totalmente diferentes de você na prisão. Você está colocando seu referencial em outra pessoa! Tentando ver a reação dela como uma cópia da sua. Mas o que realmente ocorre é que não é nem um pouco assim. Você, por se considerar alguém que tem algo a perder sendo preso, realmente segue essa lógica, mas para a pessoa que a vida na criminalidade é a única forma de vida, é o trabalho dela, é a fonte de amizades, e até mesmo família, deixar de ser criminoso já é a derrota, a sua punição. E inclusive, visto que na prisão estará cercado de pessoas que compartilham da sua experiência de vida estará mais à vontade, talvez, do que se adaptando bruscamente a uma vida comum por um possível medo de punição.

Quando se considera que uma punição até mesmo como a pena de morte poderá impor algum medo, a menos que vivamos numa revolução francesa, decapitando a todos, não haverá temor imediato. A probabilidade de alguém ser levado à pena de morte, que é a punição máxima, por um crime cometido seria bem menor do que a de ser morto em um confronto com a polícia, que ocorre diariamente. Você se esquece que para a tal pessoa a realidade de morrer no dia seguinte é extremamente mais real que a nossa nessa vida usual, a expectativa de vida no crime é baixa. Ao mesmo tempo também que essa expectativa de morrer pode até ser mais branda que a de ser preso. Talvez a vida na prisão seja até umas férias do verdadeiro inferno da guerra da criminalidade.

Da mesma forma o sistema prisional não dá certo, pois a básica premissa de Sun Tzu é totalmente ignorada. Como esperar que alguém enjaulado, xingado diariamente pelos agentes carcerários, que eventualmente deve apanhar, ao voltar para sociedade sairá um cidadão melhor ?

Porém, se como sugerido, você fizer o detento perceber que largar a vida anterior, sua “pátria”, seu comando é uma opção muito mais interessante, é uma vitória para a reabilitação. Qual é o sentido de você libertar prisioneiros de guerra antes da guerra acabar ? É isso o que acontece hoje. E a menos que você pretenda então dar perpétua ou pena de morte a todos esses “soldados”, é bom que quando saiam da prisão eles não pretendam voltar para o “exército inimigo” mas sim para a sua causa.

Quem já leu ou assistiu a 1984, de George Orwell, pode ver que até mesmo em um péssimo exemplo a reabilitação é uma saída extremamente mais eficaz, pois não são apenas novos soldados sob seu estandarte mas também infiltrados no mundo inimigo servindo de exemplo da mudança. Quando o político diz que o sistema prisional brasileiro é ótimo por que retira das ruas os criminosos e fim, ele está desconsiderando que esse sistema não é perpétuo (já saímos da idade média) e eles eventualmente voltarão, e a todos os dias algumas dezenas ou centenas voltam às ruas.

Finalizando

Não bastando toda essa questão do discurso falho ainda existem outros milhões de fatores a serem levados em conta. O desconhecimento em diversos temas, que eu acredito ser o mínimo esperado para ser presidente. Uma boa noção de diálogo e articulação, visto que o presidente, diferentemente de um deputado, é obrigado a tratar tanto com sua base como com a oposição e com quem votou nele ou não. Ainda hoje espero argumentos sobre educação e ciência que não passem do “temos que investir em educação e ciência”, pois até aí qualquer um sabe, exceto o atual governo, é claro. Apesar que ele deve saber, talvez saiba até demais e a ideia seja justamente não investir.

Guilherme Vieira


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Um comentário sobre “Bolsonaro, Falso Profeta da Segurança Nacional

  1. Bem interessante esse texto, faz ter uma reflexão ampla dos fatos e ainda traz exemplos do passado para refletir melhor sobre a situação. #GuilhermeParaUmMundoMelhor

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