Metendo os Pés pelas Mãos

Temos já aí nesse 2017 uma expectativa de vida nunca vista antes na história da humanidade. Uns dizem que os avanços da ciência estão nos fazendo vivermos mais, outros alegam apenas que a ciência nos permitiu viver o quanto nosso corpo já está apto a viver, ou seja, não prolongamos ainda a vida, apenas impedimos ela de acabar antes do total potencial possível de duração. Indiferente a esses detalhes, a sociedade vive uma diferente fase, a aceleração das inovações e das escalas das  interações deixam as gerações com uma expectativa de vida muito menor. Hoje uma diferença de uma década já define uma nova geração de pessoas, antes era um número maior, levado em conta mais o tempo que alguém levava para ser pai/mãe, ou algo do tipo. Jovens dos anos 2000 são uma geração vista completamente alienígena aos que foram jovens nos anos 90. O mundo acelerado, e esperam que você o acompanhe.

A ideia do crescimento crescente (ou seja, acelerado) eterno, muito boa para o desenvolvimento da humanidade, impulsionado há séculos por inovações que começaram na Europa com a expansão marítima, onde se acreditavam um pouco já que haveria sempre terras a serem conquistadas e impérios econômicos a serem expandidos chegou hoje a um ritmo surreal, não a toa após a década de 50 a população do planeta, tal como o consumo e produção aumentaram exponencialmente (literalmente). Mais rápido do que qualquer poderia se acostumar a isso, tanto o planeta, em sua biodiversidade, quanto nós mesmos. Fala-se que antigamente ninguém tinha problemas psicológicos, fala-se então que o que não se tinham eram diagnósticos, mas não acho que a primeira afirmação é coerente. Aos 25 anos de idade hoje esperam que você tenha decidido (ou estar perto de) sobre como será o resto da sua vida, sua profissão, seu relacionamento, qual moradia você financiará pelas próximas duas décadas.

Já se imagina absurdo que você no primeiro ano de ensino médio não imagine a profissão que deseja seguir, se é que você precisa mesmo seguir apenas uma linha de trabalho para o resto da sua vida, ou da sua vida como contribuinte. Mas a grande pergunta que fica é: precisamos então levar uma vida cada vez mais precoce se estamos vivendo cada vez mais ? Ou é tudo apenas um sistema que, no âmbito de crescer e se desenvolver cada vez mais aceleradamente, cobra cada vez mais do humano biológico não reprogramável para esse ritmo. A competição promove a seleção, mas aqui não há muito para onde correr, então selecionam-se aqueles que se entopem de café para trabalhar mais horas, aqueles que abdicam de momentos de lazer para produzir mais, aqueles que vendem mais do seu tempo, a coisa mais valiosa que alguém tem e pode vender a outro.

productive

E (agora fica pessoal) vivo num ciclo constante de fazer e não fazer isso. É uma descendente, cada vez desperdiço menos o meu tempo mas ainda assim sempre tenho algumas recaídas. Atualmente estava: fazendo trabalhos de mestrado, lendo livros, estudando chinês nas horas vagas, estudando computação quântica nas horas vagas, separando um tempo do dia para estudar fotoquímica (tema avulso de biologia), procurando tempo para treinar violão, continuando e aumentando meu treino do Wushu (kung fu), produzindo vídeos para meu canal, conciliando com tarefas domésticas, hobbie de plantas, filmes e séries, e aí me pergunte qual delas eu estava realmente fazendo direito ? Se duvidar, nenhuma. A necessidade de estar pronto, de aos 23 anos (atualmente) ter diversas habilidades de necessidade duvidosa, de ter que fazer e aprender tudo ao mesmo tempo pois simplesmente não há tempo para tudo ser realizado mais a na frente (quando na verdade a expectativa de vida diz que ainda me sobrariam uns 80 anos pela frente para fazer muitas coisas).

Longe de ser uma crítica a produtividade é um questionamento sobre o que é produtividade. E acredito que a produtividade não seja exatamente o ato de produzir e produzir mais e mais mas sim atingir suas metas preestabelecidas sobre a realização de algo. Assim, resolvi que o problema está nas metas que impomos a nós mesmos, muitas vezes surreais. Se você as consegue realizar de modo saudável, ótimo, se não, você acabará metendo os pés pelas mãos e não realizará qualquer uma das suas metas de forma satisfatória. Pois como o próprio Como Aprendemos argumenta, o modo como o corpo humano aprende é diferente da forma como todo o sistema quer que ele funcione. E muitas vezes, utilizar o seu corpo da forma ideal de funcionamento faz dele muito mais produtivo do que no modo feito ignorando que o humano ainda não é uma máquina reprogramável, embora, de todas as ideias que se possam ter, espero que uma delas não seja a de humanos robóticos mestres da produtividade, pois aí fica a pergunta: onde estará a sua humanidade ?

Guilherme Vieira, mais uma vez reorganizando seus afazeres, para menos.


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4 comentários sobre “Metendo os Pés pelas Mãos

  1. Amei o texto! Você acaba de melhorar minhas férias, eu tava enlouquecendo querendo fazer de tudo e virar a pessoa mais produtiva e pra frente do mundo, mas acho que esse não é o caminho. É devagar e sempre 🙂

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    1. Já me ferrei muito fazendo isso, tanto que estava pensando para falar aqui e vi que daria um outro artigo desse. A primeira vez que vi que isso estava errado foi quando lembrei de um preceito do meu estilo de wushu “Eu me comprometo ser paciente e humilde galgando um a um dos degraus do conhecimento” hahaha
      Mas olha que essa frase aí que provavelmente me garantiu a vaga no mestrado

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  2. Toda essa angústia é potencializada por estarmos num dos países mais desorganizados do mundo. Por exemplo, acabei de pesquisar sobre o Escandalo do Banestado, vi que o Sérgio Moro estava como juiz nele… mais de R$ 19 bilhões foram enviados aos EUA, porém somente R$ 17 milhões foram devolvidos… o próprio Moro, ao que tudo indica tem fortes ligações com o Departamento de Estado Norte-Americano… Parece que no Brasil tudo é tramado, orquestrado e planejado para o fracasso da maior parte da população… eu fazia ciências sociais numa federal, estava perto de concluir o curso, fazendo a pesquisa de campo para a monografia, mas desisti! E o faria de novo, quantas vezes fosse preciso! Foi no campo que me dei conta do país que vivo! (Minha pesquisa era sobre gestão democrática de escolas públicas). Tenho 21 anos, mudei de área, nunca tive dificuldades em aprender coisas (exceto biologia), agora penso em fazer Física (bacharelado, claro), aprender inglês, russo e holandês (pra começar) e pular fora do Barcafuradasil! Um amigo desistiu de ciências sociais antes de mim, ele foi bem orientado pelo pai (na verdade foi forçado mesmo kkkk), hoje ele está na Escola de Sargentos das Armas, e ele me disse uma coisa, que eu precisava ouvir bem antes: “Euler, aqui nós deveriamos estar preocupados com o futuro do Brasil, deviamos ser patriotas e tudo mais… mas você acha que alguém aqui está preocupado com crise, com alguma coisa, nação, política? Ninguém ta nem ai! O que importa é receber no final do mês e cair na noite! Aqui pouco importa se será Temer, Lula, Bolsonaro ou qualquer ladrão desses, nós só queremos o dinheiro!”. Mas eu aprendi agora, um pouco tarde, é verdade (ah se eu tivesse 12 anos e a mente que tenho com 21 kkkk pelo menos uma olimpiada de física eu ganharia kkkkk) mas aprendi! Escovar os dentes após refeições, andar de bike, ganhar dinheiro, estudar, se alimentar bem, tentar dormir no mínimo 6 horas… e o principal, SER INDIFERENTE, seja política, economia ou sociedade… INDIFERENÇA!

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  3. Estava tentando produzir e atender expectativas acadêmicas e sociais, não me importando com meu próprio tempo, sem nem perceber. Parecia ser normal. Ótimo texto! Que venha a continuação.

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