A Rotina do Cientista

Muitos me perguntam sobre a rotina de trabalho minha, como um pós-graduando, no momento de escrita desse texto. E eu realmente fico sem muito saber o que dizer. O grande fato simplesmente é que, olhando de fora provavelmente seŕa a descrição mais entediante o possível. Entretanto esse relato varia de diversas formas a depender simplesmente sobre o que é o tema da pesquisa.

Eu sou físico, físico teórico. Se eu trabalhasse fazendo modelagens computacionais, simulações computacionais e outros trabalhos similares provavelmente minha rotina consistiria muito como a de alguém de computação. Programando e programando sobre algum tipo de teoria formulada anteriormente, seja por mim ou seja uma pronta, pedindo para ser testada numericamente pelas contas gigantescas do computador.

Se eu trabalhasse em área experimental, que nas áreas de biomedicina e química são totalmente dominantes, tenha certeza de que boa parte da minha rotina consistiria em, obviamente, realizar experimentos nos laboratórios, ou ao menos parte dele. Preparar amostras, realizar processos, colher resultados, ou apenas observar anomalias mesmo. Devido à natureza do experimento possivelmente muitas horas de dedicação são necessárias, podendo ter que trabalhar de domingo a domingo. Imagine se você decide não aparecer no seu laboratório de camundongos por uma semana, pode esperar que talvez não encontre mais nenhum vivo depois. Ou no caso da física, tenha em mente de que você precisa fazer um experimento que necessita de absoluta calmaria, então muito provavelmente você virará a noite experimentando, ou ao menos virá no domingo. Afinal, estamos numa realidade onde vibrações de pessoas subindo escadas afetam o experimento. Parece muito, mas veja, se faz barulho, por exemplo, está alterando. Nosso corpo é um bom detector de coisas.

Mas no caso não mexo com nenhum desses modos. Sou o teórico do mais simples possível, e minha rotina consiste basicamente de ficar lendo, fazendo contas e relendo. Um trabalho que consiste basicamente de estudar, da forma mais clássica possível. Não que isso o torne fácil, talvez seja até um dos mais difíceis no caso, mas ocorre de ser o mais simples e mais barato de se investir também. Seria cômico um vídeo basicamente me filmando lendo, conferindo contas e tentando contas novas, em silêncio. Vez ou outra rola discussão sobre resultados com outros, mas não é a totalidade do tempo.

Isso ajuda um pouco a ver o motivo de porque muitas universidades brasileiras são muito boas nas partes teóricas. Pois em boa parte são as que não dependem de qualquer investimento além de alguns bons computadores para cálculos integrais e diferenciais numéricos simples. E não um caro laboratório onde o equipamento mais barato deve custar o mesmo que uma motocicleta nova.

Guilherme Vieira


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2 comentários sobre “A Rotina do Cientista

  1. Uma dúvida Guilherme, nada impede que o Físico use suas habilidades em outras áreas certo? Como a Química, a Matemática, a Computação… ou mesmo sobre história da ciência… o curso de Física que o mais completo que eu já vi, apesar de ser vestibulando ainda.

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