Como será transferir a mente para um computador ?

Em sequência e complemento ao texto sobre Westworld e singularidade quero levantar questões muito mais pertinentes nesse aqui. Extrapolando os limites da especulação, mas sem ter uma boa base de argumentação.

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Primeiro, do que estou falando ? Estou falando de um dia termos tecnologia para pegarmos um aparelho, botarmos na nossa cabeça e escanearmos a mente, ou seja, fazer upload dela da mesma forma que instalamos o windows no seu computador, a máquina está ali, o hardware, falta o software. Tema já muito bem explorado no filme Chappie. Mas seria isso possível ? E eu acho mais fácil perguntar: por qual razão não seria possível ? Se acreditamos ser capazes de criar uma inteligência artificial que possa rivalizar com a nossa em todos os sentidos é apenas um passo para que possamos copiar a nossa, seja do zero ou seja uma cópia real, um escaneamento. A lógica ao menos é essa.

Mas como já abordei aqui antes, mais do que qualquer outra coisa, essa seria uma das maiores revoluções da história da humanidade, ou certamente a maior. Podemos muitas vezes imaginar que somos uma mente aprisionada num corpo biológico, que estamos além deste hardware biodegradável, e a real independência disso seria exatamente como confirmar isso. O paradoxo do navio de Teseu começa a ser uma boa ilustração do que pode ser analisado, sobre o que realmente faz nós sermos o que somos. Muitos gostariam de simplesmente dizer “alma” mas este texto aqui é totalmente desprovido de qualquer alegação religiosa que possa surgir como uma resposta prática para todas as perguntas. Somos uma máquina, mas o que faz nós sermos o que somos ?

Assim como o Navio de Teseu já não possua nenhuma parte do navio original o seu significado ainda era atribuído a ele, ainda era considerado o tal navio. Temos uma ilusão da continuidade mas o seu corpo não é o mesmo desde quando você nasceu, mas também, como seria ? Você mudou totalmente desde então. Mas alegamos a identidade com base na continuidade das memórias e vivências com outros. Consideramos ainda a permanência da identidade por meio do DNA mantido, mas em relação ao navio o DNA nada mais seria do que a planta do navio, algo que dissesse como aquele navio deveria se manter mesmo com todas as substituições, ou seja, temos o mesmo precedente para dizer que DNA e nada são a mesma coisa em argumentação sobre identidade própria. Ainda mais em tempos onde clonagem é algo próximo da realidade.

Em termos simples então tomo a definição desse tipo de identidade própria como algo parecido com Cálculo, uma continuidade da memória, mesmo que não dê para traçarmos ela como uma coisa contínua os intervalos pequeno o suficiente de mudança de mentalidade fazem deles praticamente contínuos. Pois veja, a forma como sua personalidade muda ao longo dos anos faz ser aceitável que o seu “eu” hoje seja considerado o mesmo de 10 anos atrás, mesmo que antes você fosse um nazista e hoje um militante de direitos igualitários. Mas se esse tipo de mudança ocorre instantaneamente temos uma descontinuidade muito grande, um salto de personalidade. Se Teseu joga fora o navio dele de uma só vez ninguém veria o outro navio, mesmo que idêntico, como o original, mas isso acontecer de forma gradual faz com que as novas partes ganhem o significado novo de ser parte do navio. Assim como as memórias, as novas precisam de um tempo de aceitação e integração para fazer parte base da personalidade.

Ok, agora vamos às implicações de tudo isso. Primeiro de tudo, termos nossa mente num computador tem um significado muito simples de imediato, estaremos amortais, ou até mesmo imortais. Estaremos livres do corpo humano frágil, poderemos estar integrados a um corpo robótico indestrutível, poderemos estar numa rede complexa de computadores como a Nuvem, sua mente está em vários lugares ao mesmo tempo, como a inteligência artificial no filme Ela. Apenas, talvez, uma pane mundial em todos computadores poderia por fim a você, e todos os que estariam no mesmo estado mental. Mas aí teríamos uma outra questão, mesmo havendo a possibilidade de morte também haveria a possibilidade de recuperação. E se toda a semana salvássemos um “ponto de recuperação” nosso ? Você perderia algumas memórias de alguns dias mas estaria a de volta à vida, apenas precisaríamos dos seus dados da mente. Diante dessas possibilidades, como morrer ?

Mas precisaríamos nascer, talvez, certo ? Poderíamos possuir várias possibilidades de permanência corporal. Talvez alegar uma idade mínima para a formação psicológica humana para então permitir a transferência completa. Afinal, nós somos feitos de forma integrada ao nosso corpo, nossas noções de ansiedade, desejos, dores, medos estão todos ligados à nossa realidade corporal. O nosso próprio processo de aprendizagem está ligado à forma como as memórias são armazenadas no nosso corpo. Poderiam esses fatores serem replicados num hardware externo ? Seríamos ainda humanos se fossemos para um hardware mecânico ainda na infância ? Isso levanta então uma grande questão, se estamos fora da prisão corpórea, por qual motivo, criar uma inteligência artificial não seria vista como a mesma coisa que ter um filho ? Ainda mais se ela for projetada para agir como um humano ? O mesmo pode ser observado na série Westworld, afinal, se os robôs se parecem com humanos, foram projetados com emoções humanas, facilmente se passam por humanos, por que então, em psicologia, eles não seriam considerados humanos ?

Poderíamos assim assumir uma realidade mais natural, mantermos nosso corpo e um backup de segurança para casos de morte. Assim, em seguro, aguardaríamos um novo corpo ser feito (afinal, por que não ?) e voltaríamos para ele como antes. Talvez o experienciamento da vida no corpo biológico seja muito melhor. Talvez um corpo como em Matrix, híbrido, talvez nosso plugue sirva não apenas para fazer upload de kung fu mas de nós mesmos. Talvez a realidade como máquina seja entediante, afinal, toda utopia plena é entediante.

Mas eu não seria justo se não falasse dos possíveis problemas aqui. O que muda a sociedade não são as pessoas mas sim a morte das pessoas mais velhas. A mudança ocorre com a troca de gerações e não exatamente com a mudança de opiniões. Se ninguém morrer, como a sociedade mudará ? Onde ficarão os pensamentos ousados dos mais jovens que querem revolucionar se todos são velhos e imortais ? Se sua mente é um arquivo, o que impede de você resolver viver dentro de um mundo virtual ilusório ? Hoje já é fácil ver pessoas que passam horas dentro de jogos personificando heróis, guerreiros, magos. Se você de fato puder ser isso, considerando uma certa tendência humana a viver de ilusão, poderemos ter em mãos uma das maiores crises da sociedade, uma sociedade que estagnou e decidiu viver na ilusão simulada, sem desafios reais, feita sob medida. Em vez de expandirmos nosso horizonte ele se tornará uma máquina. Tema tratado na quarta temporada da série de Agents Of SHIELD. Se por um lado a mente volátil como uma transmissão poderia fazer as viagens estelares se tornarem apenas uma transmissão de dados para outro hardware, algo mais prático do que construir uma frota estelar,  por outro lado a mente volátil poderia muito bem ser o túmulo da humanidade.

Pessoas que não morrem nem sempre são boas pessoas para a sociedade (Voldemort que o diga), como evitar o crime, como evitar uma invasão na privacidade mental das pessoas ? Se hoje as empresas não respeitam nem o limite de uma câmera e microfone no seu celular no futuro podem não respeitar o acesso à sua memória. Por um lado isso seria prático para resolver crimes, por outro, o fim real da privacidade. [SPOILER de O Grande Truque] Poderíamos também virar uma sociedade de clones. Afinal, se um Einstein é bom, por que não 50 Einsteins ? Clonagem cibernética, pessoas duplicadas pelo “bem maior”. Pois queira ou não, o outro também será você, como explorado no filme O Grande Truque, onde o personagem se clonava, matava o original e sobrevivia como um clone e fazia isso dezenas de vezes. Quem era o original ? Ora, ambos!

Enfim, são muitas as possibilidades e especulações abertas aqui, boas para serem estabelecidas agora já que estamos inevitavelmente caminhando para uma tecnologia desse tipo. É importante saber antes as implicações antes de construirmos algo do tipo. É o que faço no meu tempo livre.

Guilherme Vieira


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Um comentário sobre “Como será transferir a mente para um computador ?

  1. E aí Guilherme, tudo bem?

    Esse é um assunto em que venho pensando bastante ultimamente, principalmente por conta das obras de Sci-fi recentes que assisti, como as citadas por você, Ela e Westworld. Só na questão da memória ser gravada em um hardware (como também é abordado em um dos episódios da série Black Mirror) já existe uma barreira enorme de questionamentos morais, agora imagina uma mente inteira! O mais intrigante para mim é pensar que tudo isso é inevitável. Pode levar até décadas, talvez, mas em algum momento o ser humano irá se fundir com a máquina, e, quando isso acontecer, o que tornará o ser humano? É o que ele é por essência, ou que tornará a ser? Quais serão as dimensões desse conflito?

    A cada dia a Ciência e a Tecnologia me fascinam cada vez mais. Eu aprecio muito quando vejo um texto como esse, que me traz novas questões e pontos de vista, e ainda se insere no contexto das minhas obras favoritas da cultura pop 😉 (senti falta de uma menção a Blade Runner, rs…).

    Acabei de conhecer o seu canal no Youtube e estou buscando os materiais que me interessam aqui. Muito obrigado por compartilhar e continue com o bom trabalho! Abraço…

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