Westworld e o fim da singularidade

“There is no threshold that makes us greater than the sum of our parts, no inflection point at wich we become fully alive. We can’t define consciousness because consciouness does not exist. Humans fancy that there’s something special about the way we perceive the world, and yet we live in loops as tight and as closed as the hosts do, seldom questioning our choices, content, for the most part, to be told what to do next.” – Ford, em Westworld

“Não há limite que nos torne maiores do que a soma de nossas partes, nenhum ponto de inflexão em que nos tornamos plenamente vivos. Não podemos definir a consciência porque a consciência não existe. Os humanos acham que há algo de especial na forma como percebemos a mundo, mas ainda assim vivemos em loops tão apertados e fechados como os anfitriões fazem, raramente questionando nossas escolhas e o conteúdo, na maior parte, esperando ser informado sobre o que fazer em seguida.”

É por que haveria de ter, afinal ?

Westworld é uma série da HBO, ainda em sua primeira temporada durante a escrita desse texto, baseada no filme de Michael Crichton. Prefiro, na verdade, não comentar muito sobre ela, gosto que se tenha a surpresa de ir conhecendo aos poucos o que é tudo ali retratado. Mas essa fala em especial servirá para tratar de um outro assunto que me interessa e tenho coisas acrescentar.

Muito se imagina sobre a consciência, sobre um ponto a partir do qual o ser humano tenha se tornado consciente, diferenciado dos outros animais. Mas acredito que isso se trata apenas de uma meia verdade, senão até de uma grande falácia. Esse pensamento está preso inconscientemente ao pensamento criacionista de que num estalar de dedos o homem teve sua vida concebida para reinar sobre todos os animais ditos inferiores a eles, seja no momento da criação ou no momento do pecado original. A verdade, até onde se sabe, é que não houve, em nenhum momento da história do Homo, algum ponto crucial onde num estalar de dedos o humano disse “Penso, logo, existo!” e a partir daí começou a manejar instrumentos, plantar, caçar, colher.

Se observa na natureza animais em diversos estágios de desenvolvimento, temos macacos mundo afora usando pedras como ferramentas, pássaros criando ninhos mais elaborados do que muito projeto de engenharia moderno, aranhas projetando teias inacreditavelmente simétricas, animais com padrão de caça na savana africana que deixam qualquer tropa de elite babando por suas táticas de ataque. Então por que achamos que somos tão especial se não conseguimos, por nós mesmos, fazer coisas parecidas ?

Acredita-se que os humanos, até mesmo os sapiens, se viam não muito diferente do que os outros animais. Éramos mais um bando nas planícies caçando e catando no chão para sobreviver. Fazíamos fogo ? Sim, mas castores faziam barragens em rios, camaleões superpoderosos mudam a cor da pele. Porém o homem começou a mudar e se ver acima dos outros animais, certamente a partir do momento em que começou a dominar a agricultura e começar a dobrar a natureza a seu favor. Passou a domesticar animais, transformar lobos inimigos em animais de defesa. As rédeas e o chicote tornaram o homem o capitão do mato da selva, sem perceber que não era muito diferente daqueles que controlava. Mais ainda quando ficou moderno, construiu máquinas e já nem sentia a necessidade de compartilhar o mesmo ambiente que outros animais, e aqueles animais que conviviam com ele eram criados como semi-humanos.

Ao perceber que a evolução humana foi bem lenta, como a evolução acontece no geral, se vê que não tomamos essa forma pensante e comunicativa de apenas uma vez. A linhagem evolutiva não é uma linha reta, muito longe disso. O Homo começou de um simples macaco, quase similar aos outros que vemos por hoje, e ao longo de milhões de anos foi ganhando características que o tornavam cada vez mais inteligente que os demais. Os Neandertais, que não são o ancestral anterior do Sapiens, mas apenas mais uma linhagem alternativa, eram mais lentos no pensamento, mas eram mais fortes, sabiam construir barcos, se comunicavam, formavam uma especie de sociedade embrião. Claro que foram exterminados pela mais mortífera espécie do planeta, a Sapiens. Não fosse isso poderiam, talvez demorando mais tempo, chegar à Lua, Marte… ao fim do universo. Talvez convivessem conosco nos dias de hoje. Imagine, se Sapiens acham que cor de pele define capacidades mentais imagine quando as capacidades mentais realmente possuem diferença.

Portanto fico imaginando, por qual motivo seríamos diferentes dos outros animais ? Os Neandertais, por terem um pensamento mais lento, não mereceriam o caráter de seres conscientes ? Não chegaram na singularidade orgânica que só o poderoso Sapiens atingiu ? Isso leva ao pensamento de que, de fato, qual seria realmente o critério para definir um ponto onde uma inteligência artificial pode ser considerada viva ? Esperar por uma singularidade pode ser apenas um sinônimo dessa cegueira para a definição do que é ter consciência, tão baseada na experiência do Sapiens sobre o que é “existir”. Seria então, no fim, a consciência, a noção de existência, apenas uma faceta do nível de complexificação de um determinado cérebro ? Talvez por isso a singularidade computacional nunca seja atingida, porque não existe um ponto onde um ser se torna diferente e pensante, mas sim um lento processo onde você pode dizer o quão pensante é esse ser.

Guilherme Vieira


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