O Futuro do Capitalismo

Inicio esse texto falando de que de todos os assuntos dos quais eu não sou especialista mas falo economia é o assunto que eu provavelmente menos sei. Um aviso depreciativo de começo.

O sistema capitalista está intimamente ligado ao desenvolvimento tecnológico e científico da humanidade. Se parar para analisar corretamente verá que ambos sempre andaram de mãos dadas. Como é dito no livro “Sapiens”, de Yuval Noah Harari, a ideia capitalista do crédito grande e prolongado começou a tomar forma quando se percebeu (e assim se quebrou o histórico ciclo vicioso) que investimento poderia render mais dinheiro. Enquanto reis gastavam todo o dinheiro que recebiam em palácios, banquetes e torneios o sistema capitalista não estaria interessado, em teoria, em acumular dinheiro, mas usar todo o excedente para investir na máquina que criou o lucro inicial.

Um rei não investia no seu reino para ele ser mais prospero, mas tomava aquilo que era produzido e gastava em algo que não faria renovar o ciclo. Com as grandes navegações, investir em tecnologia marítima, cartográfica, bélica passou a ser vantajoso. Foi necessário investimento inicial, árduo e difícil de conquistar na época, para que Vasco da Gama fosse até as Índias, mas a nova rota de comércio se mostrou próspera e assim investir em expedições poderia fazer render mais. A semente ali estava plantada.

O sistema capitalista então evoluiu, se tornando teorizado, onde o capital serviria de base para formar mais capital e assim por diante. Baseado nesse pressuposto de que o investimento feito de forma coerente daria rendimento, nos trouxe até os dia de hoje, onde existem instituições sólidas, mais antigas que países, que vivem apenas de emitir crédito para empreendimentos. Se uma empresa deposita 1000 unidades monetárias no banco, um cidadão pega em crédito as mesmas 1000 unidades monetárias e usa para pagar essa empresa. A tal empresa ficará com um caixa de 2000 unidades monetárias, mesmo que o dinheiro real inicial seja, em resumo, 1000. Assim, extrapolando e complexificando, se resume o sistema econômico mundial, onde hoje quase todo o dinheiro existente é flutuante e não necessariamente real. É uma ideia pura. Se todos resolvessem retirar seu dinheiro nos caixas eletrônicos hoje seria o fim de toda a cadeia do sistema.

Analisando dessa forma pode-se perceber que o sistema parece extremamente frágil, principalmente se considerar que a longo prazo o ciclo de desenvolvimento pode apresentar um novo ritmo. Veja bem, desenvolvimento tecnológico depende do desenvolvimento científico, e do interesse público em seguir esse desenvolvimento científico. Não existe propriamente uma garantia de que expandiremos o nosso conhecimento na mesma velocidade que atualmente. A própria eletrônica hoje está chegando a um possível limite tecnológico, embora, por bem, já tenhamos soluções mais inovadoras, mas podemos contar com uma eternidade de inovação e interesse comercial na inovação ?

Porém, mais do que uma novidade tecnológica, a sociedade atual está sofrendo uma mudança, que pode ditar um novo rumo para o capitalismo, ou até transformá-lo num novo sistema. Embora há poucos anos a ideia de financiamento coletivo estivesse mais ligada à ideia boba de uma vaquinha já se pode notar uma escala crescente do seu nível de alcance. Se antes tínhamos financiamentos para coisas pequenas como uma rifa autossustentável, hoje observamos livros sendo financiados, jogos sendo financiados, pesquisa científica, campanhas políticas e no caso mais assustador uma linha inteira de automóveis.

crowdfunding

Antes a promessa de retorno do investimento vinha por meio do banco, que emprestava e esperava receber a mesma quantidade emprestada acrescida de juros, porém dois fatores mudam nesse novo sistema. A confiança passou de instituição para pessoas e instituições privadas. A internet conectou diretamente as pessoas, e os investimento foi, além da ideia e produto, para a pessoa que propôs a sua distribuição. A internet aproxima as pessoas e as torna íntimas, mesmo que seja uma falsa sensação. Porém o outro fator mudado é que o retorno não é mais em dinheiro. A Tesla não tem que pagar em juros aos investidores, os idealizadores do jogo também não. Eles trocarão desde quase nada a até mesmo o próprio produto. E eu não sei dizer, em grande escala, o que isso representaria. Aparentemente um começo do fim ou diminuição do gigantesco capital flutuante imaginário do sistema econômico. Quem sabe esses novos tempos passem da sociedade dominada pelo crédito para uma sociedade dominada pela pré-venda de investimento. Possibilidade, claro, aberta devido a um sucesso em garantir certa riqueza ao consumidor comum, algo que, querendo ou não, é resultado teorizado pelo capitalismo.

Finalizando, esse texto não é uma ode ao capitalismo, visto que sua promessa de bem estar social de que todos crescem quando o empresário cresce se desenvolveu de forma bem distorcida para boa parte do mundo, que é explorado em trabalhos de regime quase escravos, que ainda propagam o valor medieval de pegar o lucro para si e não para desenvolver o sistema, com seus funcionários, estrutura, sem contar a fome interminável por recursos castigando o ecossistema global, mas isso é outro assunto a tratar.

Guilherme Vieira sempre teve medo do capital flutuante.


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