Em defesa do Museu do Amanhã

Já não de hoje, abertura dos Jogos Olímpicos que vejo algumas pessoas, por diversos motivos, criticando o Museu do Amanhã, na revitalizada região portuária do Rio de Janeiro. Talvez desses os mais coerentes sejam aqueles que queiram descreditar obras do (des)governo do PMDB. Mas não quero me meter em política aqui.

O Museu do Amanhã possui como foco principal, como é dito pelo seu próprio nome, focar no amanhã, no futuro. Apresentando exposições, palestras, documentários, filmes e debates que tenham em sua base algum assunto que esteja vinculado com o pensamento no futuro, local ou humano. Sustentabilidade, tecnologia inclusiva e divulgação científica são um dos principais focos do espaço. Além disso, construído como um objeto modelo para a arquitetura futura, economizando energia na iluminação com suas gigantes janelas e pintura branca, assim como possuindo um gigantesco conjunto de painéis solares que se guiam para o sol.

Antes, poucos anos antes, a região não apenas abandonada era, mas estava sob a sombra da gigantesca perimetral, que servia apenas de abrigo para aqueles geralmente consumidores de drogas e mendigos (o que foi feito deles é outro problema a ser visto). Atualmente a região virou um ponto de encontro já muito fixo de alguma parcela considerável da população do entorno. Porém discutir a questão urbanística não é o foco. O espaço ao redor está sendo bem aproveitado pela população.

Das críticas duas são principais: o valor histórico da região, que foi próximo ao grande mercado de escravos traficados da África, e um possível caráter de elefante-branco da obra. Responderei a ambas de uma vez, exibindo o que é o Museu do Amanhã.

Como já ficou bem evidente ali na descrição, eu, como físico, e total incentivador da ciência (e como Trekker, alguns entenderiam mais ainda a minha conexão com o lugar), só posso agradecer pela cidade finalmente ter um espaço tão fantástico como este, tanto pelo atual quanto pelas possibilidades futuras. Num país onde o pensamento científico, o importantíssimo pensamento científico, é deixado tanto de lado, ter um lugar de destaque para isso é como ganhar na loteria. Você já observou para que serve o museu ? Já observou a programação ? Se já foi lá, fez algo além de tirar foto com essa obra arquitetônica impressionante ?

A primeira vez que fui mal vi o museu, não fui para ver exposições, nem cheguei a fotografar, eu estava atrasado. Ia para uma palestra gratuita do meu orientador de mestrado a ser dada lá. O tema era sobre teorias de simetria, uma das fronteiras da física mais conceitual que temos atualmente. Era uma contrapartida com a sociedade sobre o grande encontro internacional de física teórica que houve no Rio na mesma semana. Palestra gratuita, gravada, num espaço de “primeiro mundo” dada por um doutor formado junto à históricos nobeis de física, especialista em diversas áreas de pesquisa. Com direito a debate entre os presentes e participação multicultural de expectadores especialistas(franceses, nigerianas e iranianas marcando presença). Ao meu lado estava alguém também jovem anotando desesperadamente tudo o que era falado, como se estivesse ouvindo ali informações que valiam ouro, e valiam, um século antes e aquelas informações renderiam prêmios nobel consecutivos. Quem sabe ele é um futuro físico…

Mas vamos aprofundar, o museu não serve apenas para palestras aleatórias de assuntos legais e extremamente complicados de física. Veremos, agosto agora, e teremos na programação: 4 palestras de pesquisadores britânicos sobre amazônia, biodiversidade, mudanças climática, todas com tradução e gratuitas; palestra sobre o exagerado consumismo e suas consequências no planeta; palestra sobre poluição dos mares, falando do problema e propondo soluções. Tem mais coisas.

Assim, quero apenas levar a essa reflexão, não vejo como ainda se pode se chamar o museu de elefante branco (ainda mais ele tendo forma de um peixe branco), se pergunta o motivo de tão espetacular(e cara) arquitetura sugiro uma referência ao pensamento de Walt Disney e sua Tomorrowland(exposto no filme homônimo). Mas ainda vejo a questão da escravidão bem forte na crítica. E só peço uma reflexão, se temos um passado de tantos erros, erros que ainda repercutem atualmente, por que não um museu que promove o pensamento para um futuro melhor longe desses erros ? Ainda mais que o museu relembra bem isso, tanto online quanto presencialmente. Não se pode esquecer do passado, e para isso outros locais estão sendo recuperados, construídos e devem ser levantados. Fazendas de cafés escravagistas devem ser visitadas, museus sobre o tema erguidos.

De toda a forma, o museu foi construído numa região duas camadas acima do mercado de escravos original, ele mesmo num local inexistente antes. A memória foi apagada duas vezes antes disso, para novos portos, prédios, bondes, praças, armazéns, coisas fúteis comparadas ao museu. Mas não se faz futuro apenas reconhecendo o problema do passado, mas pensando em novas soluções e criando novas possibilidades. Tenho certeza que visitar o museu do índio duas vezes com minha escola me fizeram uma criança bem mais integrada à cultura nativa, mas também tenho certeza que visitar o planetário da gávea com a escola também duas vezes foi de muita importância para hoje eu ser físico e tentar fazer a ciência um instrumento de mudança positiva.

Ps1: E se pela localidade, onde estão as críticas ao MAR, Museu de Arte do Rio, a ciência não tem espaço ?

Ps2: Antes

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Guilherme Vieira


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