Corte de Bolsas, a cultura anti-acadêmica brasileira

A notícia é essa Bolsas de pós-graduação sofrem cortes do governo

Não costumo fazer qualquer tipo de texto pessoal no site, porém a questão cabe tanto a uma reflexão pessoal como geral. Recentemente concluí os meu afazeres na UFF(Univ. Fed. Fluminense) em Física. Após 5 anos de curso, um tempo até maior do que o esperado, realizei meritocraticamente o concurso chamado UniPosRio, que seleciona e distribui as vagas de Mestrado e Doutorado em Física pelo estado do Rio, independentemente da sua nacionalidade e até mesmo de curso, alguns engenheiros seguem esse caminho. Após realizar minha matrícula no mestrado, ao qual fui aprovado com bolsa Capes por meio do concurso, descobri que ainda me faltava um documento para realizar a implementação da bolsa.

Bem, eu fui um dos mais de 7 mil afetados pelo temporário(espero) corte da Capes nas bolsas, o resultado da demora da entrega do documento tem uma razão totalmente simples, e não rara, imagino. A UFF, juntamente com dezenas de outras universidades federais em 2015 aderiu progressivamente a uma greve geral que durou por volta de 4 meses. Nem todos os institutos, como o de Física, param, mas a greve estabelecida paralisa a universidade toda. Assim o período de milhares de estudantes, que deveria ter começado em agosto, começou por novembro/dezembro. E assim seu fechamento, e assim as notas no sistema da universidade e por consequência o tal documento que me possibilitaria receber a minha bolsa, garantida pelo resultado do concurso feito ainda em novembro.

A grande pergunta que fica na minha mente é: em que parte eu tenho culpa nisso ? Pois em todos esses aspectos eu, e os outros pós-doutorandos, somos os únicos a sermos prejudicados por isso. O mesmo, e muito pior, acontece com cetenas de bolsistas da Faperj, que está com tudo atrasado, pessoas que já souberam que voltarão a receber apenas no meio do ano. E ainda existe a possibilidade do corte de 50% de seu repasse, segundo dizem, como meta de incentivo à pesquisa, sabe-se por qual lógica empregada.

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Carlos Nobre, presidente da Capes | Foto: Marcelo de Jesus

Esses foram os fatos, as tragédias, a realidade. Qualquer um poderia agora citar n motivos: o governo estadual do PMDB no Rio de Janeiro, que dá incentivo de milhões para cervejarias, mas não paga à UERJ o suficiente para garantir o contrato da empresa de limpeza. A crise política, que leva à crise econômica, que não resolve nada, nem mesmo quem sai e quem fica no poder. Ao governo do PT, que realizou os cortes nos setores de ciência, tecnologia, educação, nacionalmente. Ao legislativo, que não se preocupa com temas de pesquisa científica enquanto promove aumentos de salários próprios. Aos políticos em geral, corrompidos pela compra de votos, pela compra de fidelidade por doações de empresas na campanha eleitoral.

E percebi que procurar esse tipo de culpado seria um ciclo sem fim, seria mais complexo do que toda a minha pesquisa de mestrado. Por que ? Pois esse problema está muito além de toda a desorganização e jogo de interesses que é a política brasileira. Pois ela, nesse aspecto, é resultado de algo muito pior, entranhado na cultura brasileira geral. A cultura anti-científica. Quem sabe o que é um pesquisador aqui no Brasil ? Ainda impera no país a visão errada de que diploma é garantia de emprego, é o processo final de formação. Quando na verdade, para quem seguirá com pesquisa, é apenas o começo, quase que um intensivo da área. Profissão cientista ? Bom, isso não existe bem no Brasil. Físico então, preciso nem comentar.

E a quem culpar ? Ninguém talvez, pois olhando a história é sempre fácil achar culpados, mas sem saber a realidade real da época. Diferentemente de muitas colônias, principalmente as inglesas, o nosso país tardou demais a ter institutos de ensino. Quem podia pagar ia para a Europa estudar. Estudar direito, medicina… e as vezes engenharia. As grandes ferrovias aqui eram construídas com mão de obra brasileira, mas mentes projetistas internacionais. Talvez nessas épocas, com o Imperador acadêmico D. Pedro II, tivesse boas aspirações científicas e educacionais, mas num governo parlamentarista, onde o maior interesse era plantar e vender, não se podia esperar muito. As agências de fomento vivem de migalhas e tem que fazer esse tipo de corte. As empresas não investem na formação de profissionais, seus futuros funcionários, investem mais em políticos que as possam facilitar no mercado.

Ainda hoje o país vive dessa sombra. Ainda hoje poucos sabem o que é pesquisa científica. Ainda hoje questionam com algum desdém qual a importância da pesquisa de fronteira. Ainda hoje reclamam que gastam dinheiro com “telescópios inúteis” em vez de gastar em coisas mais úteis. Não é culpa também da população que é ensinada por um sistema que historicamente tem no seu grande fim dar apenas emprego às pessoas, e não o conhecimento, como primeira instância.

Realmente, como aceitariam o fato de eu pesquisas teorias de gravitação aplicadas à buracos negros ? Quanto a essa dúvida, Einstein em 1905 lançou alguns artigos, um em particular era sobre um efeito em camadas eletrônicas e radiação inerentes à eles. Servia para nada, talvez, exceto para servir de base para 90% da tecnologia que faz seu celular funcionar hoje.

A pesquisa de fronteira não é alguém pegando seu carro e visitando uma cidade nova que está no seu guia de viagens. A pesquisa de fronteira é aquela que abre uma trilha no meio da selva, sem saber bem onde dará, e as vezes leva para um penhasco, e as vezes para uma reserva de diamantes.

Guilherme, sem dinheiro para a passagem de ônibus


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