Diário da Cápsula do Tempo – Entrada 01

O ano era 2018, não era bem o ápice da inventividade humana, das ideias desafiadoras e pioneiras, mas nesse tempo haviam alguns pontos curiosos. Lembro. Produzir energia de fezes, elevador espacial, criar uma colônia em marte sem viagem de retorno, essa era surreal. Pensei em me candidatar, mas não haviam muitos pontos positivos. Seríamos pioneiros, sim, mas faltava muita estrutura decente para isso acontecer com boa qualidade. Nas minhas maluquices de participar de alguma forma da inventividade humana procurei então um projeto inusitado.

O projeto se chamava Cápsula do Tempo Viva. Sim, esse nome sugere exatamente o que é: fazer de um ser vivo uma cápsula do tempo, aqueles dispositivos que ficam lacrados por anos e anos para depois serem abertos e liberarem alguma informação.  Eu já estava pelos meus 40 anos, sem muitas pessoas com quem conviver e sempre tive uma grande vontade de saber como seria o futuro. Bem, eu poderia acelerar até me aproximar da velocidade da luz por aí, se isso fosse possível, mas não, decidi me congelar.  O projeto, com embasamento governamental, consistia de congelar um ser vivo, de forma a ainda mantê-lo vivo para ser acordado anos e anos depois. Éramos três, cada um sendo programado para despertar num intervalo de um século após cada um, eu fui o último. Bem, nada como avançar 300 anos. Nesse mesmo meio tempo saímos de barcos à vela para exploradores do sistema solar. Imaginava eu, quem sabe poder ver outros sistemas estelares pela galáxia. Nada mal para apenas precisar ficar dormindo.

 

Quando fui despertado estava absurdamente desorientado, imagine, tanto tempo em estado criogênico. O corpo humano não foi feito para isso. Apenas no primeiro mês sequer levantei da cama, recuperação dos sentidos, musculatura, tudo. Mas o que importava (para eles, convenhamos) estava bem, a memória. Não se tratava apenas de guardar os dados, mas mostrar como era um ser humano de três séculos antes. Saber como pensávamos. O processo seletivo não foi fácil, mas também não foi absurdo, não queriam passar uma falsa imagem pegando a pessoa mais culta, viajada e letrada do mundo. Apenas alguém “de bem”.

 

Foram anos como criança observando as obras de ficção científica, imaginando como seria o futuro, filmes com arranha-céus inacreditáveis, carros voadores, e… mentiras. Se posso dizer assim. Óbvio que o futuro é incerto, mas eu não esperava que fosse tão incerto assim. Claro que muitos protótipos tidos como futuristas eram descartados com o tempo, na sorte virando batmóveis para seriados. Mas muito pouco sobraria da nossa visão de 2018. Bem, em parte, o mundo estava com um excelente gosto sócio-político de Star Trek de fundo, mas bem mais repaginado.

Carros voadores? De início mal vi carros. O sofisticado centro de pesquisas de onde fui despertado ficava num lugar que parecia levar a definição de rural, mas depois percebi que na verdade não era bem assim, aquela era uma região importante. Essa era a grande diferença do novo e real futuro, todas as regiões eram de alguma forma regiões centrais. O que aconteceu com a humanidade foi bem simples, de explicar, mas não de fazer. A queda da natalidade levou à uma diminuição da população numa escala global. Claro que diferenciado entre lugares, mas se convença da minha explicação. Então começamos a ter cidades vazias, os grandes centros, estavam então meio inúteis para comportar tão pouca gente. Prédios mais imponentes e uteis foram mantidos e até refeitos, mas os menores, insignificantes, exceto os que carregavam história, foram ao chão. Esse processo ocorreu pelo primeiro século. A estrutura das cidades era estranha para aquela população. As cidades que eram assustadoramente populosas chegavam a nada muito além de 3 milhões de habitantes. Bem, parece muito, mas apenas tente imaginar São Paulo num domingo, algo assim, não farei aqui contas estatísticas. Mas esse não seria o fator principal.

 

Petróleo! O maldito causador de problemas por décadas, não estava extinto, não, nunca, tem muita utilidade. Mas não bastava a população ter diminuído, e assim a demanda geral do planeta ter diminuído. Finalmente a humanidade havia chegado à consenso sobre a produção de energia de modo renovável. Foi uma onda que surgiu no período próximo a quando eu estava para ser congelado. O mais interessante foi o desenvolvimento da energia solar. Não me pergunte detalhes, mas era algo muito prático, haviam receptores por todos os lugares. Parecia algo bem eficiente. Então, quando energia elétrica para as casas já não era um problema local as pessoas começaram um êxodo urbano.

Parecia estranha toda essa visão “retrógrada” mas fazia seu sentido, as telecomunicações estavam mais instantâneas do que nunca, e assim estava a ligação entre cidades. Para muito do transporte, trens de levitação magnética. Aí sim, isso eu vi em filmes. Coisas flutuantes. A velocidade era incrível, não limitada por atrito. Se as pessoas que moravam longe conseguiam ainda assim morar perto, bem, então por que disputar tanto por metros quadrados numa cidade só ? Você podia morar nas montanhas e ir trabalhar na orla.

Mas aí você fica pensando na indústria. Bem, a indústria vai bem, e seus robôs programados também. Muitos dos bens manufaturados agora eram feitos em casa, ou em lojas próximas, tudo impresso no que antes, em protótipos, chamávamos de impressoras 3D. Claro, coisas básicas, equipamentos tecnológicos ainda tinha boa parte dentro da indústria. Era a vida mais pacata, de cidade de leve interior, mas com conexões como uma grande metrópole. O transporte intercontinental também era feito por baixo d’água. Um tubo de vácuo me parecia. Era como puxar refrigerante do canudo, mas o refrigerante ali eram capsulas com pessoas tranquilamente esperando chegarem ao destino. Essas novas tecnologias realmente mudaram as coisas. Bem, é o básico, transporte e energia.

A alimentação ainda permanecia bem padrão. Claro, um bom padrão, não estou falando de comer todos os dias no McDonald’s. Este por acaso ainda existia, sim. Mas era tão diferente que nem me despertou nostalgia quando tentei.

O grande espetáculo mesmo era a natureza em si, com o planeta interligado as pessoas tinham total oportunidade de conhecerem facilmente o mundo, as diferentes culturas, que por terem mais contato o “diferente” começou a ficar com menos sentido. Morar no interior levou a um contato maior com a natureza, de forma a conviver com ela como realmente se deveria por um ecossistema vivo. Cooperação. E sem a iluminação forte das megalópoles, olhar para o céu, quase de qualquer lugar que estivéssemos, era um espetáculo. Imagino que assim era quando os gregos olhavam e tiravam das estrelas noturnas suas teorias sobre deuses e ciência. Vi o céu como nunca vira antes na minha vida, não imaginava que ele era tão surreal. Dias sem lua eram os preferidos.

Sim, ouvi dizer que viagem espacial está em voga. Mas acalme-se. Esse é meu primeiro momento de escrita após ter sido acordado. Os rapazes do laboratório me recomendaram, serve para guardar tudo o que lembro, sei e penso. Faz parte do experimento, mas essa é a parte fácil. Fazer análises mais técnicas estava no meu contrato não prescrito de 300 anos atrás. Como se fosse esse um emprego ruim também, viajei no tempo e nem gastei para isso.

Guilherme Vieira – guilhermewells


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